Amei o sotaque dele
e o cheiro delas.
Sinto teclas de um piano invisível.
Pianos de cauda.
Cafés amargos.
Vãos livres.
Pesadelos kafkanianos.

Hoje eu comprei flores e cervejas geladas que sorvi solitária e lentamente.
ArteS , eu construo um edifício no plural para esboçar, ler, cuspir e escarrar.
Porque eu trabalho com um milhão de artistas
e eles são tão vastos por dentro.
Difíceis, complexos.
Têm séculos de técnica dentro de si.
E teorias:
Dalcroze.koellreuter.Orff.Ostrower.Roubine.
Cancline.Huizinga.Freire.Ana Mae.
Comprei flores na Pamplona, entre a Jaú e a Santos.
Desci sozinha a rua (solitária por dentro e por fora).
Na sacola latas de ócio de 344 ml.
Artistas são tão fortes dentro da 4ª. parede -
fortes e prudentes na incoerência das composições: paisagem sonora, ações dramáticas, Machado de Assis, Bergman e o famigerado Dom Quixote ilustrado por Doré em 5 tomos.
Tantos artistas e tão
LIVRES!
Sem manifestos, sem roteiros.
Tantos artistas dentro de duas torres azuis.
Eu trago um tanto deles comigo.
(Trago, exalo e observo a fumaça subir.)
Sinto que tudo que sei sobre arte é um esboço tão diminuto.
Tão unilateral.
E, quando troco dinheiro por flor,
troco o que eu fui pelo que eles (os artistas das duas torres azuis) me fizeram ser.