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Archive for January of 2008

Sobe do chão de porto alegre uma memória sem data

January 11, 2008


O que foi e o que é Porto Alegre se confundem.

Eu vivo dois tempos, não sei sentir dois presentes tão misturados.

Desaprendi o jeito de dizer as coisas.
Reconheço as ruas, sei onde ficam os museus que me interessam, sei onde fica o oeste que guarda sempre um pôr-do-sol colorido.

Mas é difícil andar pelas ruas e VÊ-LAS no hoje.

Este saudosismo me parece uma arma perigosa.
Um convite enfeitado e cheiroso ao congelamento.

Mas eu não sei congelar, nunca soube.
Uma fagulha em mim sempre compara e impede que qualquer coisa cristalize.
Estar viva na minha cidade natal, ou em qualquer outro lugar ou tempo é fagulhar. Isto é, é medir algo em relação a algo
- como se fora possível opor o que é distinto.

O tempo deste lugar já se foi há tanto em mim que guardo memórias das próprias memórias.
Como?
Decorei que qualquer símbolo de POA me soa bom, e ponto, como um aluno do segundo grau sabe o número atômico do Zinco, sem saber para que serve.

Impus-me a forma com que devo olhar para a passarela que liga um lado do Parcão ao outro, por exemplo.
Condicionei-me a amar o café tomado no terraço da Casa de Cultura Mário Quintana, mesmo que esteja quente demais para o verão e o adoçante muito amargo.


Terraço da Casa de Cultura Mário Quintana

Obrigo-me a amar o que eu tive de tão perto, porque havia algo de melhor nas coisas, algo que era um eu profundo,
imerso-imenso,
inquestionável.

Algo que descobri por comparação,
com dor,
quando não tive mais.

Repito para mim o amor irrestrito que minha mãe guarda da cidade que ela viveu,
mesmo que não seja a mesma.
Nem sei bem se amo porque sinto irradiar de dentro um calor alegre por tudo, ou se me quero racionalmente deste jeito.

No antigo cenário, vejo tão poucos personagens.
Meus amigos viraram adultos.
Muitos adulteceram tanto que apagaram a infância, e no processo, deletaram a mim também.
Alguns viraram arquitetos, advogados, empresários.
Outros nomes esquecidos, rostos vagos, sensações.
Todos com o sotaque carregado do Sul, ao lado do Guaíba de erres fortes.

De todos amigos, meu coração preservou apenas três sem alteração alguma.
Entre eles, uma arquiteta que se casa amanhã. Ela me olha como se olhasse para uma espécie de limbo longínquo. Eu a vi tornar-se uma mulher de longe, e cada vez mais e mais distante. Sinto que a amo mais do que ela gosta de mim. Mas o amor é meu, e eu cuido e vejo a mulher bonita e generosa que ela se tornou. Questiono e me confundo com as decisões tão precisas e me maravilho como o impulso positivo e alegre que ela traz e relaciono carinhosamente com todas a memórias e idéias que trago comigo sobre ela há mais de 20 anos.

Guardo ainda outra arquiteta, com quem me exponho de todos os jeitos. Tomamos mate (várias cuias) e ela me conta a vida e tudo o mais que sente.
E eu idem.
Gosto tanto de ouvi-la. Nela enxergo as marcas da genética. Reconheço o tom da pele, o nariz e o jeito dos pais. Cada insegurança dela, eu devolvo com afeto de quem recebeu por anos risadas e risadas para espantar os fantasmas do apartamento 801.

Guardo também mulher séria, corajosa, sempre tão linda de beleza diferente da loira-alta-olhoazul-supernamoda-padrão-porto-alegrense. Com ela eu gosto de rir, de saber que somos menos e menos meninas, mais e mais tudo aquilo que nem imaginávamos. Admiro e sinto falta, vou vê-la em breve, espero, ela é sempre ocupada com o tempo presente que não consigo alcançar.

Depois de tudo vou costurar nas avenidas os versos que decorei do Mário Quintana.
Um a um.
Ainda não sei com que fita.
Costurarei todos os poemas que fiz ex-namorad@s ouvirem a esmo,
e decorarem compulsoriamente.

Quem sabe eu me liberto da que foi
e me torne uma Porto Alegre de agora,
em trânsito para o até breve?