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Archive for May of 2007
May 26, 2007

tem um amor guardado em cada música do cazuza.
tem um tanto de mim nestas lacunas desertas do corredor, do teu quarto-escritório
da minha
sala-atelier.
tem um boneco mudo de um mário quintana tão gritante!
tem uma porto alegre submersa em mim.
sempre tem uma cidade tão grande cheia de medos soterrados.
e tem tanto de você nisso tudo.
tanto e sempre,
meu amor.
tantos cigarros mal apagados.
embalagens de camisinhas.
pequenas mentiras.
grandes saudades.
são histórias.
mentiras.
verossimilhanças.
é sempre este palco com iluminador daltônico,
diretor de som jazzista,
roteirista à la bergman.
esta a coisa toda que eu sei.
que na verdade não sei, mas finjo tão bem que vocês todos acreditam.
e do palco, do lado de dentro,
de fora do quadro,
eu me mostro.
você quer ver?
acho que não.
quer saber ou tentar notar?
sempre acho que não.
mas faz parte do meu monólogo com vinho, arroz integral e free light maço.
chega uma hora na vida que brigar cansa.
que distância também.
chega um tempo em que teoria e crítica literária dão prazer.
mas tesão e gôzo só na literatura.
sem os parnasianos, sem os naturalistas.
só todo o resto, que é muito, que não é resto, mas é vasto e lindo e suave e singelo e gigantesco como Octavio Paz, como quer Silviano Santiago, como quer a cor mais vermelha que eu conheço,
ou mais geométrica que eu desdenho.
o tempo vem.
a estrada sempre sempre sempre.
faz parte do meu show
ter amor.
brega?
não sei.
sei tão pouco.
odeio jogar xadrez.
sei sentir a cor do tabuleiro e
amar meu adversário.
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May 24, 2007
Eu tenho um vício, e este a Veja não tem coragem de encarar.
Aquela voz meio sufocada, aquele sotaque carioca que não me agrada.
Mas este cara é um paixão sorrateira, daquelas de cruzada de olhar no bar escuro, e cama.
Eu gosto de ouvi-lo cantar das margens.
Meu Cazuza caminha nas bordas dos mapas sociais e marca o território com xixi nas esquinas hipócritas e imorais.
Adoro a lucidez de olhar a barbárie e saber que ela mora fora do sexo e dentro de propinas, da falta de respeito, da corrupção e da frustração.
Gosto dos gritos diante dos abismos.
Gosto de saber que o tempo não pára (tenho imagens líricas gravadas de uma piscina de ratos).
Adoro este lirismo cretino, cretino.
Adoro ouvi-lo desdenhar quem o chama de ladrão, de bicha e de maconheiro.
Adoro a coragem de quem aponta com dedo em riste para um pequena burquesia pequena.
Com arranjos singelos como todo rock dos anos 80 do Brasil, ele libera uma raiva transformadora, uma
ira cheia de tesão, daquele tipo que vira um tapa estalado na cara e puxa pelos cabelos até a boca para beber a saliva.
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May 08, 2007
somos de um império de peles claras demais para os trópicos.
trazemos mapas invisíveis marcados por pontos cardeais em cada reentrância do corpo.
nossos mapas trazem caminhos secretos cheios de monastérios em que se pratica bocha e se falam dialetos italianos.
entre as coordenadas pousam constelações ainda sem nome, mapas astrais, eneagramas, desenhos de tarot, símbolos incas e cristãos.
em cada uma das faces temos um segredo de Tebas, de Jerusalém, Roma, Porto Alegre.
sob os pontos coloridos trazemos carnes, gorduras, órgãos e uma caixinha bem pequeninha de histórias secretas.
quem souber a senha as escutará uma por uma, noite após noite, mas nunca as desvendará.
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May 02, 2007
armei uma cidade inteira com cola, fita adesiva e ansiedade enquanto contava nos telejornais em línguas diversas quantos países comemoraram o dia do trabalho com represálias.
minha cidade sem cimento ergueu-se toda colorida.
roubei as cores do caminito de La Boca para pintar os prédios.
meus homenzinhos de plásticos ñao protestaram por condicoes melhores de trabalho, talvez porque ñao houvesse jornada de oito horas, carteira assinada, trabalho informal, patroes (ainda ñao tenho certos acentos), dívida externa, especulacao financeira e policiais na minha cidade sem carros.
mesmo que meus homens trabalhassem pra fazer casas coloridas e produzir a energia que os iluminava, o sistema que os regia era completamente desconhecido para mim.
ñao sei dizer se eram felizes, sei dizer que se preocupavam mais com caminhar, falar do tempo e de comida do que em discutir política.
fiz as mulheres de todos os tamanhos. gordas, magras, altas, narigudas, barrigudas, sem gorduras, com tatuagens, com taillers...
Julietas de papel, as batizei.
fiquei horas olhando praquela cidade.
foram horas tentando descobrir onde estavam as utopias, os muros pichados,
os skatistas,
os outdoors,
a bolsa de valores,
os museus,
as igrejas.
mas ñao havia nada, ñao os encontrei.
entao tentei criar analogias entre todas as sociedades animais, regimes políticos e teorias sociais para entender aquele lugar.
mas analogias e metáforas nunca cabem nos lugares certos.
meus homens de cola e minhas julietas de papel me deixaram com este mistério.
deixei as horas irem e as analogias possíves terminarem até que uma julietinha saiu correndo de uma casa azul violáceo.
aflita, ela empurrou uma fila de homens que cairam como em um jogo de dominó japones.
a julieta rasgou-se subtamente em duas metades quase identicas.
cada uma das metades da julietinha se desdobraram e redobraram.
daquele monte de papéis amassadinhos sairam correndo um homem e uma julieta de papel.
foi a reproducao mais veloz e diversa que ja presenciei.
foi aí que eu apaguei as luzes, tomei meu rivotril e fui dormir pensando em como será o dia da mulher, a páscoa ou o natal na minha cidade de cola e fita adesiva.
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