página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de A COR ILEGAL: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for April of 2007

de ser quem se é

April 28, 2007
xul solar obra tu y yo

há quase um mes eu moro no mesmo prédio que 19 pessoas, todas falantes de español. eles tem (ainda ñao tenho acentos) entre 18 e 38 anos. a média de idade deve estar próxima da a minha irma mais nova - 21 anos.

interessante estar por perto.
importante eu diria.
aqui sinto e sei algo que sabia com firmeza quando eu era uma gaúcha convicta - somos latino-americanos.

somos sim, e isso ñao é papo de esquerda, de boteco ou de nacionalista. é impressionante como as referencias dos sobreviventes das américas do sul se cruzam e complementam.

há muitos dias suporto acordar em outra língua.
há semanas me acostumo a retalhar o idioma español em pedacos pequenos que depois recomponho unindo os sotaques e gírias de equatorianos, colombianos, argentinos, mexicanos e peruanos.

o que eu gosto neles, sobretudo nos argetinos, é o receio da dominacao cultural dos EUA.
evidentemente há aqui mais salas de cinema exibindo filmes dos EUA do que argentinos, o mesmo passa com as músicas executadas pelas rádios bonaerenses e, claro, com os lugares de comida rápida.

mas os argentinos sao enfáticos sempre que se referem aos habitantes dos estados unidos da américa - chamam-nos de norte-americanos. o que ñao é evidentemente de todo correto, já que canadenses e outros povos também o sao, mas convenhamos que nós todos somos americanos. isto ñao é balela, eu insisto. isto é pulsante.

(ah, a diferenca entre isso, isto e aquilo é importante no español corrente. a distincao é tao séria que eles nao sao incapazes de entender frases mal empregadas. se voce diz ´essa semana te vejo´, quer dizer que em alguma semana que ñao na corrente vai ter um encontro, por exemplo.

alfajores, doce de leite e ruas sem subidas ou descidas - outras maravilhas argentinas.

coco de cachorro por todo lado, uma realidade portenha bem mal cheirosa.

em realidade ñao era minha vontade escrever nada disso.
queria apenas descrever a sensacao serena de depois de tantos dias poder ficar quieta, sozinha, ouvindo música clássica sem falacao em quaisquer línguas e cumbia como música de fundo. nada contra, claro. mas a delícia desta solidao graciosa depois de percorrer a rua Santa Fé todinha, visitar o Museo Xul Solar e me apaixonar por este pintor moderno até na assinatura, comer uma salada e ler um post da Audrey é incomparável.
pela primeira vez volto pra casa em buenos aires.
minha casa?
tem nome y apellido - sou eu.

April 20, 2007


o silencio das ante-salas dos predios de buenos aires sao de dar calafrios.

espelhos
poltronas
luminarias

todos semi-vivos.
brinquedos de criancas mortas.

a noite, enfeiticada pelo calor entre chuvas torrenciais, faz destes lugares nuvens de solidao misteriosas.

volto pro meu esconderijo em palermo viejo sobre um antiquario na rua charcas. aqui, mesmo nos dias de calor torrencial, eh impossivel se esquecer da umidade quase absoluta da cidade porque o cheiro de mofo marca todos os tecidos.

fumar um cigarro, olhar o ceu quase sem estrelas, assistir á marge chamar pelo romero e pelo bart na televisao e dormir, so assim tenho a liberdade absoluta de desejar, amar, odiar e esquecer na minha lingua.

April 13, 2007
null

em pé
ao meio dia
entre a estacao carlos gardel e a pellegrini
rodrigo me conta que vais embora.

ele me diz isso com a naturalidade de quem pede um copo de agua,
de quem tropeca
ou conta qual é a previsao do tempo do outro dia.

eu

eu engoli, mastiguei e entresteci com uma dor tao funda que o metro se abriu para poder abrigar minha sensacao.

as palavras simples delë fizeram as minhas visceras se espalharam por entre os pes daqueles portenhos apressados

palavras-adagas
palavras-bombas

coloquei meus oculos enquanto meu amigo me contava feliz que um pedaco de mim sumiria.
pior: que um pedaco de mim nao me queria
me desprezava
me ignorava

pensei nisso de olhos fechados
e recebi aquele sentimento pesado como uma morte solitaria.

entao pensei.
preferir pensar, porque sentir aquilo seria carregar sobre os ombros algo maior do que obelisco, que em seguida eu encontraria.

entao metade de mim andou pela florida
metade de mim quis sumir
metade de mim nao me quis

"ele vai embora"
as palavras-adagas do meu amigo foram cobras venenosas,
foram bisturis enferrujados que abriram uma fenda profunda entre a minha garganta e meu umbigo

assim, com meus pedacos a mostra, metade de mim andou por uma buenos aires cinza.

melodramas
exageiros
[esse e o fluxo da vida, movimento, vida, roteiro para propaganda.[
novela brasileira?

nao sei.
sei apenas que meus ombros estao cansados
minha mente entristecida
minhas maos nervosas
e o buraco
ainda mais fundo.

April 08, 2007
andar pelas ruas dominicais de buenos aires e como caminhar sobre um tempo que eu desconheco.
o vento eh um abraco feito de frio cortante e umido.

caminhar como um fantasma ingles.
ver os cartoes'postais e nao querer nenhum deles eh uma vinganca pessoal.

fotografo os musgos,
os reflexos nas janela,
o rastro amarelo e preto dos taxis.

adoro as faixas de pedestres longuissimas.
me espanto muito com a quantidade de senhores e senhoras bem velhinhos. sao tantos+ elas tao coloridas nos rostos, eles solenes, europeus.

chineses, chineses, chineses, em todo lugar.
hoje, dia de pascoa, fazem'se 3 pedidos e quebram'se os ovos.

tenho do, ovinhos lindos de chocolate argentino esmigalham'se.

com frio e cansada volto com meus tres pedidos para casa.
Nao tenho acentos