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Archive for December of 2006

women in red

December 31, 2006

Eu como pão de queijo que engorda, fumo o cigarro mais fraco de todos (mas que ainda assim faz mal).

***

Eu olho as ladeiras de Porto Alegre com medo.

Olho sempre pela metade, porque o resto delas é espelho e eu não quero me ver.

Pelo menos não agora, não enquanto eu sou um caminho retalhado, esmirilhado, pilhado, iludido e não sabido. 

***

Aqui a vida corre nos veios seculares talhados na madeira do tempo familiar.

 ***

Parece que este é o dia mais estranho da minha vida.

Talvez porque eu não tenho sido forte

Nem fraca

Nem eu

Nem os outros

Nem as máscaras 

Não tenho sido nada exatamente

 Tenho sido o embaraçamento dos versos do Alberto Caeiro

da paixão equivocada pelas escolhas equivocadas

do medo

da preguiça

e da solidão. 

Será que a questão é desembaraçar-se? 

Pois eu acho que não,

I bet that the biggest point is to became me - mesmo que isto seja fluido, impraticável ou ilusório.

***

Acho que entro no próximo ano desacreditando de todo no amor sensual e afetivo entre dois indivíduos, mas vou pular nele (no ano) com absoluta esperança no trabalho, na arte e na possibilidade de mudanças positivas pequenas e colossais.

Mas enfim, independentemente de todas estas atrocidades que a vida oferece no fim deste ano, descobri Bessy Smith, sorvete de doce de leite, boiar por horas na piscina (Ah, o sol portoalegrense é torrencial, me dá a vermelhidão horrorosa das branquelas estúpidas) e talvez o mais importante - sentir vontade de não ter raízes ou de me tornar uma planta inteiramente nova.  

Que venha 2007 e tudo que ele quiser de nós, e nós, dele. 

December 31, 2006

anoiteceu em Porto Alegre

December 30, 2006

sob duas luas portoalegrenses ela fuma um cigarro:

na fumaça um mistério genuíno,

na tragada uma promessa de coragem.

***

 

 

viajar é congelar o tempo.

 

***

não ter uma casa é acorrentar-se à liberdade

 

***

 

a notícia de um enforcamento de um ditador é tão devastadora como encarar uma lei medieval.

Natal em terra vermelha

December 24, 2006
Porto Alegre é uma cidade em crise. Crise boba, simples, mas sintomática. Porto Alegre se divide entre os que estão extremamente felizes por serem colorados campeões mundiais e os gremistas alvos de gozação. A verborragia entre eles parece inevitável. As discussões soam como embates ancestrais que depois de milênios vem (ou vêm) à tona. Para quem oficialmente não é uma coisa nem outra, isto é, gremista ou colorado, nada faz muito sentido. E o pior, não há outro assunto. Sou uma estrangeira na minha terra.

das cores de se estar perplexo

December 19, 2006

"Um generalista generoso vale mais do que um milhão de especialistas pernósticos" Hayokai

Do mestre Alberto Caeiro:

December 14, 2006

 

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso  eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

Ela foi ao mercado sozinha

December 12, 2006
 

Não comprou danoninho, bolos super calóricos, chocolates, bolachas ou arroz branco.

Não comprou nada daquilo que sabe que estraga lentamente a saúde.

Comprou sucos, frutas, arroz integral e todas as delícias que preparam o corpo para um bem-estar singelo.

Não se preocupou com as tardes em que ele passa horas em frente ao computador sem comer nada, na ânsia chocólatra que ele traz, nem no desejo por creme de leite e leite condensado.

Meu deus, como ela odeia leite, como ele ama leite.

A substância branca de pura gordura envelhece as células, ela pensou na gôndola de leites de todos os tipos, marcas e tamanhos.

Pão integral, claro. É mais caro, quase o dobro do preço, mas é carboidrato de lenta absorção que faz bem para o intestino e para o coração.

A compra é um ritual de sobrevivência. É um ato de escolha.

É uma auto-definição.

Breve

capitalista,

mas é.

Estar sozinha em um supermercado é como planejar todas as refeições de uma semana solitária.

Ela sentiu-se triunfante, egótica, cheia de si.

Quando entregou o comprovante à menina grávida do caixa e o menino que empacotara as compras lhe oferecia sete sacolas pesadas a sensação libertária caiu sobre seus braços com 20 kg de alimentos.

Do supermercado para casa os 20 kg se empilharam em 14 melancolias solitárias.