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Archive for November of 2006

Como transformar metafísica em religião

November 30, 2006
 

- cadê a vovó Julia, mãe?

- tá no céu.

- com quem?

- com Jesus.

- você vai lá?

- eu não!

- por quê?

- só quando a mamãe morrer.

- que dia vai ser?

- não sei, filha, vai demorar ainda.

- por quê?

- porque sim. mas um dia todo mundo vai morrer filha.

- hum.

 

- mãe, cadê meu celular?

- tá NAONDE você deixou filha.

- ué, não sei.

- você não lembra NAONDE deixou?

- não, acho que deve estar com Jesus. liga pra ver se ele atende e deixa eu falar com a vó Julia, mãe?

Três mulheres e um destino: divórcio em Maringa'

November 28, 2006

 

ou uma saga almodovariana

Oh, céus, são 16h, o Fórum de Maringá fecha às 17h! Corra amiga, corra...

Deixem comigo, garotas, eu conheço todas as curvas desta estrada, rá!

Nossa, que estátua linda. Vamos parar para apreciar, afinal temos 15 minutos sobrando. 

 

(15 minutos esperando o trem passar.)

Sempre tem um trem quilométrico no meio de uma história de ação! Poxa, não conseguimos fugir nem deste clichê?

 

Nossa, um cone de sorvete gigante. Acho que chegamos. (sempre achei que as sorveterias fossem laicas, vai entender estes empresários de Maringá.)

No exato último minuto chegamos.

- Seu juiz, pelo amor de deus, acabei de chegar de Londrina e blablablá.

- Ok, pague R$ 270,00 que você será liberta.

Depois do caixa eletrônico:

Assinem aí por favor.

(Dúvidas: Por que casamento é um grande evento social e o divórcio é privado e praticamente velado?

Por que não há festa, des-alianças, padres, muitas testemunhas e arroz?)

Depois de dizer "sim" ao juiz há muito que se comemorar.

(Sugestão: antes de casar vá a três divórcios.)

Comemoração calórica, evidentemente. (Do palácio da justiça para o do consumo as coisas não mudam muito.)

Vamos pegar a estrada de novo logo, o tempo está fechando.

Rápidas e mais velozes, porque a estrada depois de um divórico é sempre mais fácil.

Caraca, nunca consigo fazer três pessoas aparecerem na foto.

Além de pagar advogado, o processo e o Mac Donald´s, oh céus! os pedágios que o tio Requião prometeu acabar estavam lá!

Dois pra ir ( mais dois pra voltar, óbvio = R$ 17,60).

 

A descoberta da viagem: a estrada de Maringá abre um portal secreto para os anos 80. Incrível, até a Kátia cega surgiu inesperadamente no rádio.

- Poxa, Kátia cega nãooooooooooooooooooo.

- Não acredito! Kátia cega. Sempre ouvi falar em um portal dos anos 40 entre Londrina e Maringá, que decepção porra! Tira esta rádio merda e coloca Ella se não eu vou a pé.

Não estou brincando, vou pular!

Calma, calma, depois daquela igreja o portal acaba. (graças a deus, Kátia cega é demais para uma divorciada.)

Passa rápido porque eu vou vomitar toda a batatinha frita se esta mulher não parar de cantar e a Gábi continuar a fazer estas caras ridículas.

- Nossa, Londrina, graças a deus! Kátia cega acabou! Hum, só um problema, olha para trás.

- Putz, que foda, tá chovendo.

 - Não, não estou falando da chuva.

 - O que foi então?

 

- A menina não conseguiu sair do portal dos anos 80.

- Que medo. E agora?

- Já sei!

- Tira meu sutiã e amordaça ela.

- Tá e daí? Ela continua balançando o cabelo e fazendo caretas super sexys.

- Relaxa, a gente vai joga'-la no Lago Igapó, boba.

 

 

PÁRAMO

November 27, 2006
 

Sei, irmãos, que todos nós já existimos, antes, neste ou em diferentes lugares, e o que cumprimos agora, entre o primeiro choro e o último suspiro, não seria mais que o equivalente de um dia comum, senão que ainda menos, ponto e instante efêmeros na cadeia movente: todo homem ressuscita ao primeiro dia.

Contudo, às vezes sucede que morramos, de algum modo, espécie diversa de morte, imperfeita e temporária no próprio decurso desta vida. Morremos, morre-se, outra palavra não haverá que defina tal estado, essa estação crucial. É um obscuro finar-se, continuando, um trespassamento que não põe termo natural à existência, mas em que a gente se sente o campo de operação profunda e desmanchadora, de íntima transmutação precedida de certa parada, sempre com uma destruição prévia, um dolorido esvaziamento; nós mesmos, então, nos estranhamos. Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até à hora da libertação pelo arcano, a além do Lethes, o rio sem memória, Porém, todo verdadeiro grande passo adiante, no crescimento do espírito, exige o baque inteiro do ser, o apalpar imenso de perigos, um falecer no meio de trevas, a passagem. Mas, o que vem depois, é o renascido, um homem mais real e novo, segundo referem os antigos grimórios. Irmãos, acreditem-me.

                                                                                       Guimarães Rosa

                                                                         Páramo, in Estas Estórias

Tempestade

November 25, 2006

 

 

 

 

 

 

Poemas não deveriam ter títulos

November 20, 2006

 

 

 

O vento falseia um mundo novo.

O vento é a matéria invisível do desejo,

da imaterialidade do fato.

 

Meu deus

como eu sofro por querer ser vento,

quando sou nada.

 

Uma navalha invisível

perde o fio cavocando meu átrio esquerdo,

o direito ela ignora.

 

Pois é este desprezo minha única utopia de salvação.

 

Com as vísceras expostas

sou a face horrenda do monstro

(que mutila o criador).

 

Com as veias abertas

espero a cirurgia milagrosa:

auto-preservação e calmaria.

 

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Eu gosto de ver os rostos apreensivos nas salas de cinema de horror.

 

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A pulsação das pessoas nas salas de cinema equivale ao coma induzido: paralisia catártica.

 

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Eu odeio mosquitos, mas eles me amam com tanta gratuidade.

 

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“Toda pessoa quando se sente no direito da vida, vai exercê-la”.

  

Aurélia, minha poeta capixaba de estimação

November 19, 2006
Mais vale uma valia na mão
do que o amor voando
flanando 
indo ver
qual é?
Mais vale viver de carro
do que viver
a pé?
Mais vale comer
caviar
do que as galinhas
que lhe aprouver?
Mas vale valer
os olhos da cara
do que dar a cara
ao tapa ao gozo à tara
do cara que vier?
A aposta
o risco
a proposta -
atrás do número
se esconde
alguma resposta?
Mais vale o que te leva
além do vale
além da selva
além da merda.
Aurélia

visão imposssível: uma mulher sozinha numa mesa de bar

November 17, 2006
são homens que me miram

eu gosto destes olhos que desejam
e não me sabem

são vistas ansiosas de uma ilusão-Gabriela
um não-lugar Gabriela
dois sonhos-donzela

de dentro desta pandora perplexa espinafro estes olhos-apolos
re-olho
com miríades-medéia

assassino-os dentro
ofereço-me como propriedade feminia (que não sou)

eu-medéia-medusa

O oposto do sexo

November 16, 2006

Eu deixo a Billie cantando bem baixinho na sala.

Apago as luzes.

Acendo duas velas verdes.

Deixo a água do chuveiro cantar.

 

Depois visto uma calcinha e meu sapato de salto pretos.

Faço alquimia com as minhas maquiagens.

Entro numa calça, sem tirar os sapatos.

Escolho um sutiã da mesma cor que me abraça.

A blusa cobre o que quero sempre mostrar.

Acendo um cigarro.

Espero lentamente.

Saio.

O futuro sempre esteve no Oriente

November 15, 2006

Hugo nos fala das três épocas da poesia em “Do Grotesco ao Sublime”. Com simplicidade e concisão ele afirma que a poesia (e ser humano) moderno é o homem real, o homem de verdade, aquele tão péssimo e tão maravilhoso quanto nós.Nesta modernidade inauguralmente romântica, o encontro dos opostos, a convivência do Grotesco do Sublime. Hugo relembra as muitas manifestações do grotesco desde a idade da epopéia. Então que espécie de grotesco caracterizaria a idade moderna?Para ele, o grotesco humanizado, valorizado, interiorizado, não aquele dos monstros medievais ou dos grandes malévolos clássicos.

Se Hugo é surpreendentemente visionário e coerente em outubro de 1827 ao distinguir a modernidade e defini-la como um conjunto de procedimentos de humanização e da dessacralização da verdade, por outro lado postula os preceitos emblemáticos sobre os quais a arte moderna e vida teórica e cotidiana tiveram prazer e persistência em derrubar.Ao deslocar o centro, Hugo amplia  a lente e observação do mundo, entretanto a rotação do centro é, em si, uma reafirmação da Verdade capitular.Um século depois, sobre estas bases críticas e ousadas, este eu humanizado é fragmentado. O centro não há mais.

Um exemplo formal e teórico é “Adonis e o Alfabeto” do brilhante e pouco conhecido como teórico Aldous Huxley. Além dos experimentos alucinógenos, pelos quais é diretamente associado, o escritor consegue misturar ciência, budismo e apreensão da vida cotidiana para passar da idéia “de que o drama da idade moderna que pinta a vida” é muito mais complexa e profusa do que qualquer romântico seria capaz de imaginar.

Talvez os mais de cinco mil desenhos de Victor Hugo espiritualizado dissessem mais sobre isso, dissessem sem dizer, que é o que propõe Huxley. Entretanto, esta base inconsciente das gravuras monstruosas do escritor francês ficaram submersas, pelo próprio desejo de Hugo.

Em “Adonis”, Huxley propõe um ser anfíbio composto pelo eu e mais uma cadência imbricada de seis expressões do não-eu. A síntese desta teoria se baseia na crítica do cogito cartesiano. O tal “penso, logo existo” que formulou um mundo científico sobre o qual o ser humano se deu o direito de olhar para si e para o mundo como fato empírico, como Verdade posta além dos limites mitológicos, aprisionou e ainda aprisiona.

Huxley propõe a existência não a partir do pensamento, mas o pensamento que subsiste além do desejo de compreender, “minha existência não depende do fato de eu estar pensando; depende do fato de que, saiba eu ou não, estou sendo pensado, sendo pensado por uma mente muito mais ampla que a consciência com a qual, em geral, me identifico"(p.20). Não há a verdade que define o caminho disso, desta metamorfose do auto-conceito humano, da arte e das teorias todas Huxley foi muito além de Hugo.

Ultrapassar a experiência, os vícios, o conhecido.

O novo que se apresenta sem que se queira.

Isso é modernindade?

Pós-modernidade?

Se for, quaisquer uma das duas, ela esteve sempre no Oriente.

E nós, simples mortais ocidentais, continuamos construindo castelinhos de razão, progresso, evolução. Assistimos pasmos à safra primorosa de cinema oriental. Assistimos sempre pela metade. Segundo o pensamento de Huxley, a narrativa recontada revela apenas o discuros, o grau cultural e o espaço social daquele que conta.

A revolução teórica, iniciada por Hugo naqueles idos de 1927, nem começou dentro de nós, tolos e maquínicos prepotentes ocidentais.

November 13, 2006

O amor não é um ato natural. É uma coisa humana e, por definição, a mais humana, isto é, uma criação, alguma coisa que nós fizemos e que não ocorre na natureza. Alguma coisa que fizemos, que fazemos todos os dias e que todos os dias desfazemos.

Octavio Paz

Segundo o Darwin da nanotecnologia

November 13, 2006

 

Robô inteligente é resultado natural da evolução das espécies, diz Kurzweil.

a manhã de ontem quis ser cor de rosa na minha janela

November 09, 2006

 

uma formiguinha na capa

November 08, 2006

 

A vida se derrama pegajosa, lenta, imprecisa. A vida é um treco amorfo. A vida é uma porção de coisas que eu nunca vou saber, sobretudo quando ela não houver.

A vida é um filme sem trailer, um delírio sem arrependimento, uma conjunção de carbonos, uma interação de instâncias do eu, um livro mal escrito, um computador velho.

A vida é um monitor 15 polegadas.

A vida é um Jazz gostosinho no rádio, uma orquídea que quer nascer forte e colorida, uma dissertação que implora pra ser impressa, uma mãe que sente saudades, um pai alcoolista, um irmão careta, uma irmã tão parecida – tão idêntica – que a vida não sabe diferenciá-la de um espelho.

A vida é um blog cheio de coisas egocêntricas, um blog que morre de medo dos comentários do Al Vacaeda, mas ao mesmo tempo nem lembra que ele (s) existem. A vida é um jogo de mímica sem regras, um copo de água destilada, um casamento. “A vida é” é coisa de cartão de aniversário evangélico com uma formiguinha na capa, mas, além disso, a vida é um buraco tão grande, tão imenso, que me faz correr dela todo dia, querer não tê-la por não ser tão imensa quanto ela exige, mesmo que eu saiba que sou falível, idiota e previsível.

November 06, 2006

November 06, 2006

November 04, 2006

November 04, 2006

Estar acordada às 7 horas de um sábado depois de dois filmes é estranho. O primeiro, A Lula e a Baleia, bobo, singelo, casal se divorcia e os filhos sofrem; o segundo menos pretensioso, muito menos existencialista, a continuação de Albergue Espanhol.

A madrugada foi rápida.

Veloz mesmo.

Quando eu ouvi a rua movimentada já era dia.

Eu detesto blog com cara de diário, mas não sei porque, acho que foi esta mesa com esta luz branca tão lindas, tive vontade disso.

Ainda estou na fase de readequação ao mundo. Hum, o que é isso?

Por pior que seja o filme, eu preciso de um tempo para situar exatamente onde, porque e quando eu sou. Não sei se é por conta desta sensação que vou ao cinema ou alugo DVDs. Na verdade, a esperança antes do filme é geralmente mais prazerosa do que a sensação de flutuação depois dele.

Independentemente da qualidade técnica, estética ou do tema, o corpo guarda as sensações do filme por algumas horas, daí a tal flutuação .

É esta minha teoria: cinema é fisiológico. Muitas vezes a gente busca motivações racionais para justificar ter gostado ou odiado um filme, mas eu acho que no fundo são máscaras mediocremente elaboradas para esconder o mais obviamente ridículo: a sensação.  

Não sou especialista em cinema e provavelmente tudo isso é clichê para quem entende. Se bem que, às vezes, entender tudo sobre técnica, ter um currículo invejável em produção e uma lista quilométrica de filmes assistidos atrapalha porque tudo se mistura e o hedonismo some mais rápido do que os créditos sobem na tela.

E agora eu volto pro resto da minha manhã (londrinense, por enquanto).