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Archive for July of 2006

super-mulher-aranha-viúva-negra

July 30, 2006


Mais uma vez a sensação de aperto súbita encheu seus olhos.

Para se esconder dos outros, ela abriu rapidamente a porta de metal da frente da casa e foi até o geladíssimo quintal.

Carol foi buscar o silêncio e a liberdade da noite para situar naquele mapa mental confuso o nome da dor.

Aquela mulher solitária viu um céu azul marinho e um pedacinho de lua que parecia um close ampliado da fase dos girassóis do Van Gogh.

O satélite, lindo-lindo, criou nela uma sensação de estupidez libertadora. O mundo foi naquele segundo bem maior do que o quarto, a sala e a cama vazios.

Carol quis de volta os segundos que teve disponíveis para preencher com os desejos que ela nem sabia se tinha, mas na impossibilidade de tê-los vivido, ela os quis com desespero.

Na verdade, ela não sabia porque a falta dele a incomodava tanto.
Carol investigou em si porque ele gostar tão pouco dela a incomodava tanto.
Quis entender porque a fazia sofrer saber que para ele o gostar era uma lembrança vaga que só exista quando óbvia, presente, visível, trepável; porque o descompromisso dele com o gostar a afetava tanto era a pergunta que ia e voltava de um canto a outro das consciências dela.

Para os modelos da Carol, este gostar é rejeitável, é um não-gostar, é um pseudo-amor, é o dobrá-lo, evaporá-lo, esvaziá-lo.

Ela nunca acreditou num amor pela metade, num amor de 1/3 ou na malvadeza de ser tão submissamente mal amada.

Por ele, ela abandonara a poesia, a felicidade de se sentir colorida ouvindo Bach e Vivaldi.

Ele fora a voz passiva desta história, porque ela era a atriz da demolição.

Carol havia chorado umas quatro ou cinco vezes nos em cantos escondidos da casa em dois dias seguidos. Choros rápidos, escorregadios, inevitáveis que a envergonharam.

Achou, então, sob aquela imensidão do jardim, estúpidas a dor, solidão e tristeza que compunha em ritmo disperso na música cotidiana.
Toda aquela merda de sentimentos por alguém que achava que devia amá-la, respeitá-la, desejá-la e por ela nutrir saudades, e que, intuitivamente, não fazia.


Aquela mulher triste no jardim gelado não entendia como permitira se transformar naquela coisa que sofria. Carol achava-se tão forte, grande e manipuladora. Achava que podia ser super-mulher-aranha-viúva-negra. Na realidade, queria ser esta face poderosa de si mesma de novo, queria ignorar os espelhos que gritavam o quanto ela era feia, gorda, tinha olhos pequenos demais e sobrancelhas e cílios tão minúsculos, apesar de ser linda.

Mas sob a lua, dentro da noite gelada, Carol se envergonhou da solidão tão aguda que sentia, odiou-se por se sentir tão frágil e tão mediocramente pequena.

Sem chorar, ela voltou para a casa. Deixou do outro lado da porta a angústia e deu-se uma boa notícia:

uma tela em branco sobre o cavalete, 7 tons de verde, uma bisnaga grande de acrílica branca, outra preta e 4 pincéis redondos.

Foi sobre elas que Carol construiu sua versão de si mesma nova e imensa, com ou sem ele.

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Então grudou no quadro ainda úmido um bilhete (não o derradeiro, mas o penúltimo) feito com letra minuciosamente desenhada.

Colocou a tela finalizada no parafuso central da maior parede da sala. O quadro secou lentamente naquela madrugada úmida antes que ele voltasse pra casa e ficasse espantado por não mais do que 4 ou 5 minutos com os verdes e com as palavras dela.

Carol só voltou a ver aquele quadro 3 meses depois, quando pegou o resto das roupas e devolveu as chaves da casa para ele.

Ah, o bilhete, o último que escreveu endereçado a ele, não tinha quadro verde como envelope:

“se me amasses,
me transformaria no que sou”

Guerra e Paz (mais alguns clichês)

July 28, 2006





Alia morava em Foz do Iguaçu desde que nasceu, há 24 anos. Em 2004 conheceu Abdul em uma festa promovida pela mãe aos conterrâneos que moravam na cidade.
Abdul era um cara sério, tenso e concentrado.
Aquele jeito tão diferente dos amigos bêbados que cantavam coisas ininteligíveis no fim do evento fez a moça sentir uma espécie de repulsa e revolta. Ela teve a nítida impressão de que se tratava de um homem jovem demais para aquela seriedade e velho de mais para tamanha empáfia.
Despediu-se da mãe enquanto chamava o motorista para ir pra casa exausta depois da maratona cabeleireiro, manicure, pedicure, maquiador e todos os profissionais que se encarregaram de colocar-lhe dourado nas partes em que uma mulher tem permissão para se colorir.

A um passo da porta, o jovem homem sério demais quis Alia para si. Um impulso tão obvio que não repensou em nenhum minuto ulterior.

A menina tomou-o como um desafio. Dispensou o motorista e fez daquela madrugada um diálogo hostil que terminou numa cama de um motel vagabundo.

Três dias depois, Abdul foi para Chicago terminar o último ano do curso de Engenharia eletrônica.
Sabiam que eram um casal. Não se amavam, mas precisavam-se. E precisar é sempre mais devorador e imperativo que as sensações quentes entre o sexo e a memória.

Dali a 9 meses o menor templo de Bint Jbeil estava reservado para vê-los sacramentar a necessidade de terem-se.
Ela partiu de Foz do Iguaçu com as roupas devidamente passadas e perfumadas. Ele arquitetou todos os detalhes com os quatro irmãos homens que se orgulharam de ver o mais novo deles casar.
Alia sentiu alívio ao deixar o solo brasileiro e serenidade cada vez que o pensamento de que aquele homem cheio de si seria o imperador daquela vida amorfa que ela carregava para o Sul do Líbano.
Ela acreditava que se dirigia para o desposamento, ele imaginava que teria a mulher desconhecida mais estonteante que logo seria (ela) mais um dos bens preciosos que carregava consigo depois de cinco anos de desconfiança e olhos de descrédito que experimentou nos Estados Unidos.
Mas às 16h37 minutos da hora local de Bint Jbeil, Alia e Abdul descobriram que não eram nada disso, eram apenas civis.
Eles foram unidos, ungidos, tornaram-se um.
Alia e Abdul se tornaram o mesmo número, aquele a ser somado entre as vítimas dos bombadeios de Israel contra o Líbano.
Para assistir: Siriana

O que você acha disso?

July 19, 2006



Cientistas da Universidade de Munique publicaram um estudo em junho de 2004 informando que o planeta Terra poderia sofrer uma mudança em sua trajetória celeste caso acontecesse um grande deslocamento simultâneo de pessoas. O Prof. Dr. Hans Niesward e seus colegas do Departamento de Física Gravitacional da universidade alemã calculam que seria necessário um mínimo de seiscentos milhões de pessoas em um hemisfério pulando ao mesmo tempo, para produzir efeito sensível.

Os cientistas utilizaram verificações sismológicas de quedas de meteoritos na Terra,como o meteorito Joulos, que atingiu o Oceano Pacífico em março de 2001, e de grandes movimentações simultâneas de massas, como a vibração literal da torcida que acompanhava a final da Copa do Mundo de 2002.

O Projeto World Jump Day se baseia na idéia de que se 600 milhões de
pessoas no Ocidente pularem ao mesmo tempo no dia 20 de julho de 2006, mais precisamente às 07:39:13 de Brasília (segundo o site oficial do “movimento”), a Terra sairá do eixo, passando a fazer um percurso maior em torno do sol. Assim, o problema do efeito estufa estaria resolvido, os dias seriam mais longos, sem falar do clima mais homogêneo.

Para tal manobra é necessário pular às 7:39:13 sobre superfície dura (asfalto betuminoso, concreto) para maior amplitude do salto.

E aí, vai pular?

Como é estar dentro de uma sexta-feira?

July 14, 2006



Joseph Barrak/ AFP In UOL


Dentro desta sexta é facilmente possível se apavorar/indignar com a brutalidade de Israel que ataca dois países com os quais faz fronteira. Lançar míssil contra aeroporto e pontes tem cheiro de primeira medida de guerra (que parece, Israel acha que pode bancar).

Talvez a arrogância esteja muito bem lastreada pelo apoio de outro país com o mesmo espírito bélico e soluções diplomáticas explosivas e inconseqüentes.

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Mais assutador que as cenas do ataque é o apoio incondicional dos senhores do clã Bush, que assim que vislumbram a possibilidade de explodir bombinhas e satisfazer o desejo infantil (Freud explica) de dominar o mundo, abanam logo o rabinho - felizes da vida - já que a indústria bélica tem que se movimentar e as verbas homéricas que o congresso destina para o pentágono precisam ser justificadas.

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Foi exatamente esta a reclamação que dois presidentes de sindicatos norte-americanos me fizeram em entrevista há 3 anos: quem tem menos dinheiro, cada vez mais fica desassistido pelo governo que deixa de repassar verba para educação e saúde por ter como prioridade questões internacionais e econômicas que interessam diretamente os Bush.

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Ah, quem foi mesmo que disse que Israel era a única democracia da região?
Para ver como ela funciona mais de perto (pelo lado de quem não conta a história oficial e midiática) vale o filme Paradise Now.

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Agora, aqui, mais ao Sul do Equador, cabe a nós, pacientes telespectadores, acompanharmos a agenda diária dos candidatos à presidência.

O que mais intriga é saber como um indivíduo pode ter tantas informações e opiniões que julga as mais corretas e pertinentes sobre TODOS os assuntos que interessam ao país.

Se o problema é a guerra civil de São Paulo, todos tem um caminho adequado e um conselho ao governador, se a questão é a seleção brasileira masculina de futebol (me estarrece perceber que a palavra seleção é sinônimo, no Brasil, de seleção brasileira masculina de futebol, como se não houvesse outros esportes e categorias) eles também têm opinião a respeito, se o ponto é o congresso desabitado, as soluções surgem na boca de todos os partidos.

Chega-se a uma conclusão bastante lógica, ou os candidatos à presidência são megalomaníacos ou são os super-homens de Nietzsche.

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A propósito, nossa democracia partidária é tão eficiente como jogo de dama sem as peças pretas. Se um partido há décadas corrompe, compra votos, tem os jingles mais chicletes e os candidatos com as máscaras mais confiáveis, tem oito vezes mais chances de continuar nesta ciranda de poder porque o tamanho do partido e das coligações proporciona mais tempo no rádio e na TV, que é onde as máscaras realmente são vendidas.

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Uma coisa que minha ignorância não me permite compreender: candidato não precisa renunciar para se candidatar enquanto está liberada a campanha?
Não é estranho uma senadora que tem apenas pouco mais de um minuto para expor seu programa de governo usar a tribuna do congresso (com retransmissão nacional) para discursar?
Sem falar no caso do Lula Esporte Clube, que a todo custo precisa participar de mais um campeonato brasileiro, caso contrário, como ficarão os companheiros que assumiram mais de 9 mil cargos públicos criados na gestão do Presidente Esporte Clube?

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E a verba épica que o Estado e os estados investiram em propaganda durante todo o mandato?
Sempre, claro, veiculando as maravilhas que a gestão está realizando em detrimento de divulgar informações pertinentes?

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Só mais uma coisa. E se você leu até aqui acho que só umas linhas não vão cansar tanto: por que os funcionários do legislativo, executivo e judiciário não são todos concursados?
Prova de conhecimentos gerais sobre o local em que pretendem atuar, língua portuguesa, filosofia, sociologia, exame de currículo, avaliação do programa de atuação e da aptidão do candidato para realizá-lo.
O candidato seria contratado por 1 ano, com possibilidade de renovação contratual a cada 12 meses, quando seria submetido à auditoria pública.
Concurso + auditoria = não seria um sistema interessante?

Cruz, credo!

July 03, 2006
Por que pra jornalista, cuja profissão é o jornalismo clichê, o mundo se divide em jornalistas e curiosos?
Os jornalistas não são curiosos?
Quem não é nem “personalidade”, nem jornalista, é curioso?

RIO - O treinador da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, não quis saber de encarar imprensa e torcedores na chegada ao Rio de Janeiro, na manhã desta segunda-feira. Sob orientação da segurança do Aeroporto Internacional Tom Jobim para evitar tumulto no terminal de desembarque, o técnico saiu pelos fundos e foi direto para sua casa. Muitos jornalistas e vários curiosos, entre eles algumas pessoas com a camisa da seleção brasileira, esperavam alguma declaração de Parreira.
Fonte: Estadão

Meu deus, qual a relevância de “entre eles algumas pessoas com a camisa da seleção brasileira”?