ou post biográfico pela metade
O day after ou a tarde seguinte das três doses de conhaque e seis latinhas de cerveja é angustiante. Sair da cama e olhar-se no espelho é um suplício dolorido e lento. A ressaca, das solidões que ele conhece, é a pior de todas.
Eita, Paulo, (ele se auto-critica) para que fazer isso com teu corpo sadio? Porra, Paulo, por que tanta sacanagem contra si mesmo? E o corpo dele é a rede de tecidos infectados pelas toxinas do álcool tentando restaurar a normalidade do sistema.
Enquanto isso, na sala de justiça, os neurônios restabelecem algumas das conexões possíveis e lamentam pela morte ou genocídio de milhões de células cerebrais.
Da batalha química do cérebro cabe ao Paulo, aquele ser submetido às atrocidades do corpo, experimentar as sensações sufocantes do mal estar físico e da vergonha pelos excessos da noite anterior. O cara tenta esquecer, fingir que não existiu a fatídica, mas ela parece ser o espetáculo que todos amigos têm prazer em narrar. O telefone não pára de tocar. Paulo tem a mais eficiente arma contra amigos sem ressaca e cretinos: bina. Vendo os números conhecidos no aparelho ele se sente tão poderoso e auto-suficente na redoma de pretensa serenidade que tenta reconstruir.
Os amigos do Paulo vão todos para o Valentino se despedir do bar mais presente na história coletiva da turma. Mas Paulo é o cara que vai ficar em casa com vergonha das barbaridades que acha que cometeu na noite anterior. Vai se prender entre as paredes seguras nesta noite e nas próximas 15 outras, até a ressaca moral passar e ele decidir fabricar uma nova noite etílica para se encarcerar mais duas semanas na frente do computador a procura de fodas no chat do UOL, categoria Cidades.
Enquanto isso Paulo vai cozinhando em banho-maria os flashes que aos poucos se tornam cenas daquele porre. Sente arrepio de saber que falou com um bando de gente que nem conhece, que dançou feito go-go boy trash da Friend´s com as amigas sapas já que nenhuma mulher heterossexual lhe daria a liberdade daquela libertinagem sem ritmo, que contou as intimidades mais escabrosas pra gente que nem vai lembrar da cara ou do nome, que abraçou forte e disse que amava quinzenas de conhecidos, que fez as mesmas perguntas de sempre pras mesmas pessoas, que gastou mais do que tinha com o líquido amargo que o corpo (numa tentativa de amenizar a barbárie) enviou de volta pela sua boca.
Cada memória destas toma de Paulo horas para ser digerida. Aí, sentado no escuro da sala, Paulo reza pela piedade dos sobreviventes daquela noite. Reza pelo santo do esquecimento que ele não sabe quem é, mas sempre ouve seus pedidos de ressaca.
Ai, senhor, faça com que aquela gente não se lembre de mim, faça com que, pelo menos, minimizem minha conduta perversa e desculpem as minhas idiotices.
Antes das 3 da manhã deste domingo Paulo vai tomar dois calmantes e vai se sentir melhor assim que lembrar que todos que bebem são solidários na ressaca.
ou quase tudo por Joana
Joana
Ela me ligou do bar.
Eu fui.
Acordei correndo (meu deus que suplício!), vesti a roupa mais amassada da gaveta. Nada, nenhum real na carteira além de uns dólares que eu guardo há décadas, sei lá eu porque.
A cidade em polvorosa. Tudo verde, tudo amarelo.
Todo mundo conscientemente brega, jacu pra usar uma expressão da época do epa. Pior que as camisetas, os adesivos, as bandeiras de plástico e aquele mar de bêbados na frente das televisões dos botecos, só a barulheira infernal de apitos, buzinas, gritos.
Passei meu cartão de crédito no posto de gasolina e eles me deram o valor em dinheiro, claro que sem os 10% de taxa que eles embolsam de quem tem preguiça ou medo de usar caixa eletrônico.
Já era uma da tarde e eu ainda procurando um táxi.
Meu celular toca, toca, toca.
Era ela.
Que mina chata, pensei.
Não atendi, mas perdoei a insistência quando lembrei dos peitões dela e imaginei que eles estariam espremidos dentro de um decote verde-amarelo.
Fui andando até o bar. O cara metido de dois metros de altura e toneladas de músculos não me deixou entrar. Eu expliquei que a minha namorada havia reservado uma mesa naquele inferninho com uma semama de antecedência.
Pedi para ele revisar a lista de reservas, mas ele preferiu me fazer esperar até que ela se manifestasse.
Então ela veio, vestida com o tom mais intenso da tabela de cores entre o amarelo gemada e o cobre.
Oi, querido, achei que você não viesse.
Imagina, eu não perderia este jogo por nada, e jamais ficaria mais de um dia sem te ver.
O segurança retirou o cordão de metal que separava a rua deserta daquele lugar barulhento e me deixou entrar.
Me senti um vitorioso, deixei-o babando no decote da mina e agarrei-a pela cintura.
Eu não bebo, nem sou afetivo, mas fiz questão de sentar bem em frente dele para pedir uma cerveja e alisar a Joana enquanto ele ficava lá exercitando caras feias e o poder temporário que o dono do bar lhe concedera.
Dez minutos depois, aquele bando de gente bêbada fazia coro pro garçom trazer cerveja, pro Parreira tirar o Ronaldo de campo e pro Robinho entrar porque o time, ah, meu deus, o time era uma coisa lentaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Mais lenta ainda era a minha vontade de acordar naquele lugar. Tentei me concentrar na Joana para me sentir mais feliz.
Revisei o decote dela uma centena de vezes. Mas nem aquele penduricalho que roçava um seio e depois ia brincar com o outro me animou.
Quando eu conseguia formular uma imagem idílica com morangos, óleos, cama redonda e ela esparramada e nua, aquela mulher gritava, trocava o nome dos jogadores, comentava com as amigas o tamanho das coxas do Adriano, cantava musiquinhas rimadas sobre o orgulho de ser brasileiro.
E eu pensando no tanto de imposto que eu pago pra não ter acesso a nenhum serviço decente, na sorte do Lula de tentar a reeleição em clima de economia eficiente e gente feliz com a seleção brasileira.
Fim do primeiro tempo.
Pedi o prato do dia. Arroz, feijoada, farofa e um troço verde refogado. Aproveitei a boca cheia pra não precisar discutir o jogo com ela.
Ela me veio cheia de beijinhos e abraços de contentamento, ai, como aquela mulher se sentia feliz de ser brasileira.
Depois da comida inventei uma dor de barriga. Ela ficou tão triste e decepcionada. Eu disse que o meu intestino era um carrasco cruel, adorava me torturar nas horas mais impróprias.
Ela fez cara de choro, mas fui salvo pela seleção que voltou ao campo. Em dois segundos eu não era nem uma sombra de memória para Joana entretida naquele espetáculo.
Voltei pra casa pelas ruas vazias.
Eu era o andarilho preto e branco e silencioso, a Joana era a fonte colorida do meu desdém e o desejo de conhecer gente normal, que não gasta metade do salário com coisas da cor da bandeira na época da Copa para torcer por algo que nem sabe bem o que é.
Cheguei em casa aliviado.
Fechei as janelas para diminuir o barulho das ruas e fui ler um livro.
Há quase um mês eu entrei numa loja de bichinhos.
Escolhi o peixe mais vívido.
O homem colocou-o, azul e brilhante, num saco plástico.
Eu dirigi por Londrina com o peixinho no banco de carona. No semáforo pegava aquele saco com água e ficava espantada pela possibilidade de conviver com um outro troço que contivesse vida.
Ele ficou no aquário oval, daqueles de desenho animado, no meio da minha sala.
Ele nunca foi feliz aqui. Ficava parado se fingindo de morto no fundo do aquário ou nadando feito louco, nunca normal ou constante.
Ou ainda cheio de si, grande e impetuoso na frente do espelho.
Quis dar um amigo ou uma namorada pra ele, mas me informaram que os betas são agressivos e territorialistas e que ele mataria todos, fêmeas, machos e filhotes betas ou quaisquer outros bichos que estivessem no mesmo espaço que ele.
Nunca o batizamos.
Era o meu peixinho que dava um pouco de organicidade a este apartamento cheio de coisas eletrônicas. Era uma vontade de ter uma forma de vida por perto que não respondesse por comandos ou teclas de atalho.
Pois hoje ele (e ela, a vontade)estava morto.
Não tive coragem de olhar, foi o Guilherme que viu e me disse. E lá foi meu peixinho azul nadar do outro lado.
Ele foi e eu fico.
Ele me deixou sozinha. Por incrível que pareça um peixinho morto é uma solidão que se abre.
Idiota? Não sei, é isso que eu sinto.
Deitei na minha sala. Fiquei vendo o azul e as montanhas de água vaporosas lá em cima emolduradas pelos prédios. Era um rio no teto do mundo, correndo pra não sei onde, se desfazendo. Tudo tão lindo, tão indescritível que dá vontade de se sentir vivo.
Meu peixe nunca olhou pro céu.
Se existisse um céu de peixes ele seria feito de água.
Nunca tinha sabido da morte tão de perto. Nada que se relacionasse tão diretamente comigo tinha deixado de viver.
As coisas vivas simplesmente param de se mexer.
É a não ação que caracteriza a morte? Talvez por isso há quem diga que a vida é o mover-se, o ir indo entre as coisas. E quem não morre fica no limbo de se sentir feliz por não ter deixado de ser vivo e infeliz por um pedaço daquilo que se é ou se vê do mundo ter desaparecido. E isso, este fato obrigatório e corriqueiro é tão mais catastrófico do que um tsunami, um terremoto, o quebra-quebra no congresso ou a copa do mundo.
Idade é condição numérica de respeito social, eita verdade imbecil.
Liberdade suprema é ignorar o tempo ou, pelo menos, fingir a inexistência da morte e exercitar um pedaço saboroso de poder.
Um velho irresponsável que ri do tempo é sempre mais interessante que um moleque responsável.
Quanto mais velho se fica mais fácil é aprender a amar profundamente idioticies bizarras e evitar a as bobagens da macroeconomia, macrohistória, metafísica e outras coisas que querem ser maiores do que os olhos podem imaginar e a mente ver.
[Eu sei que estou ficando velha e eu gosto. Acho que sempre fui velha e, aos poucos, meu corpo toma a forma daquilo que eu sempre fui - um moleque chato que carrega a seriedade da curiosidade procurando as ferramentas adequadas.]