A COR ILEGAL

A Cidade






A matéria que me soterra nesta noite é a mesma que me faz sempre suscetível.
Porque meu nome é vida que pulsa, é aquilo que se sente, se explode, se pensa através dos sentidos e do abismo que mora no oco do peito, na fenda da mente.
A vida que ganha com a intensidade da insanidade a capacidade de ser pelos sentidos, de existir assim.

E você, a calmaria serena.

Pra quê?
Para ser sempre razão, sempre a ponderação falaciosa.

Então, a obrigação positivista de progresso tecnológico higienista recombina os caminhos das ruelas, avenidas, ruas e becos e me impõe um quinquilão de toneladas de substância sufocante.

Eu sinto o mundo de espelhos, por mim e por você.

Esta equação louca é o que você acostumou-se a chamar de vida, e eu, de morte.

Pois eu tenho morrido, toda manhã é um sepultamento.
Por que a vida que eu guardo são os versos em que eu me quis viva, e no ato de guardar eu elaboro um esconderijo secreto tão fundo como nunca eu cavei.

Meu refúgio sou eu.
O lugar submerso.
A rima paupérrima de se mostrar no espelho invertido.

É este o meu presente:
o reflexo da miragem,
o avesso de mim,
o oco daquilo que eu nem sei mais.

(E esta merda toda é sempre uma coisa que se parece com qualquer coisa que chamam sempre de marca feminina. Por que na coisa de ser feminino é sempre o buraco de ser masculino? É sempre o sensível? O subjetivo? O melodramático?
Mas o que eu sei das visões, cheiros e cores é sempre o trânsito fluido de gêneros, o ir e vir entre fêmea, macho, andrógino, poesia, prosa.)

Regenerar.
Gerar o inverso de si.
Esta é a máscara primeira da cidade.

Degenerar.
Esta é a persona, é a calcificação daquilo que se inventa para se estar vivo dentro dela.

(Eu não sei se é possível fakear o mundo por muito tempo.)

Publicado em 18 de maio de 2006 às 08:52 por gabi

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