Há mais de um mês dois ovinhos pequenos apareceram na floreira vazia do meu escritório. Tá, tudo bem, eu pensei, eles são inofensivos.
Aí, duas semanas depois, veio a mãe que ficava sobre eles durante a noite, achei bonito o zelo dela e deixei-a se apossar do lugar.
Depois de alguns dias ela resolveu ficar ali o dia todo.
O barulho e o coco começaram a deixar de ser inofensivos.
No último mês os ovos viraram duas coisinhas pequenininhas e feias que rapidamente viraram duas pombas com cara de adultas.
Todo dia eu ia até a janela vê-las ficar maiores, diferentes.
Então o barulho cada vez maior e os cocos mais abundantes ficaram insuportáveis.
A mãe barulhenta e cara de pau alimentava as criaturas fazendo a maior algazarra do mundo. Quando o barulho era tão alto a ponto de me desconcentrar eu batia no vidro para ela parar. Mas como as pombas não são animais inteligentes, apesar de muito bem adaptáveis a quaisquer ambientes, ela nunca mudou de atitude. Custava fazer tudo sem berrar? Custava ensinar os bichos a comer e a voar logo? Mas nada, ela ficou ali mais tempo do que comumente elas demoram pra cuidar das suas crias.
A mistura de dó e nojo é uma das sensações mais estranhas que já experimentei.
E o nojo juntou-se ao medo quando descobri a
infinidade de doenças que elas podem transmitir.
Consegui há poucos minutos fazê-las sair da minha janela. Há dias pensava nisso, mas tinha de dó porque imaginei que elas morreriam. Que nada, as safadas agora vão perturbar meu vizinho de baixo, argh!