Antes de tudo, as bisnagas de tinta, o caderninho de raschunho e aquela tela que parece imensa ficam olhando imperiosos pra você.
Você desconversa, vai tomando coragem, rabiscando e imaginando.
Depois, pronto!
Parece que a coisa toda tá super resolvida e o que separa a tela pronta da idéia definida no caderninho é só o tempo.
Neste momento você está sereno como alguém que passou no vestibular, comeu a mulher mais gostosa que conhece ou ganhou na mega sena.
Aí fica o duelo entre o tempo, a tinta que escorre pelo chão, a vizinhança barulhenta e a idéia primeira rabiscada no caderninho que cada vez parece mais distante (apesar do passar do tempo).
Então surge uma certa esperança e auto-confiança. Você se sente mais concentrado e feliz porque as pinceladas vão formando aquilo que sua mente projetou.
Aos poucos você vai ficando sujo, imundo, o atelier idem, claro.
A coisa vai ficando meio chata, sem sentido porque você se sente como um varredor de rua, um apertador de parafusos ou pintor de paredes, porque a coisa te impõe um esforço braçal chatérrimo.
Você sente então uma mistura bem medida de alívio da coisa estar terminando e receio de ter parido uma bosta colorida, ao invés de um quadro.
Tá, enfim acabam os traços, as pinceladas.
E aí você fica bem felizão porque acabou o martírio delicioso daquilo.
Então coloca a coisa na parede, investiga o resultado e vai sendo invadido por uma sensação estranha de angústia depressiva.
Enfim, tudo finda, “graças a deus”, você pensa.
Fica olhando aquela coisa ali, parada, imóvel e cruel. Parece que a coisa se coloca sobre os seus ombros e te obriga a se odiar por estar em frente de algo tão distante da idéia primeira rabiscada no caderninho.
Aí você disfarça; sai de casa, vai tomar uma cerveja, finge que esquece.
Mas quando entra pela porta da sala: plumb!
A coisa está esperando sorridentemente por uma olhadela sua. Exibida que só ela, a coisa quer ser investigada em cada polegada.
Esta briga lasciva só acaba quando você decide ser mais forte escondendo-a, ignorando-a da memória e dos olhos.
Aí, sete ou oito meses depois, você re-olha: tira de dentro da caixa das coisas indesejadas e a concede um
habeas corpus.
Com pudor a coloca de novo na parede.
Então vocês se aproximam, se olham no fundo dos olhos.
Se abraçam, sentem-se, gostam-se e fazem amor como dois amantes loucos e saudosos.