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Archive for February of 2006

carnaval

February 27, 2006



a cidade fica vazia.
fica o silêncio gostoso de um lugar sem tamburim (graças a deus).
as ruas fáceis de atravessar, as horas lentas de passar e uma goteira
constante da geladeira descongelando na cozinha que espera por faxina.

a cidade vazia e o quarto bagunçado, o escritório com pilhas de artigos pra ler e a sala
num emaranhado de tintas-pincéis-cores e telas em transição.
nossa, que cenário animado, você pensa.
ai, que sono, penso eu.

:: O PARTO ou COMO A COISA NASCE ::

February 25, 2006



Antes de tudo, as bisnagas de tinta, o caderninho de raschunho e aquela tela que parece imensa ficam olhando imperiosos pra você.
Você desconversa, vai tomando coragem, rabiscando e imaginando.









Depois, pronto!
Parece que a coisa toda tá super resolvida e o que separa a tela pronta da idéia definida no caderninho é só o tempo.
Neste momento você está sereno como alguém que passou no vestibular, comeu a mulher mais gostosa que conhece ou ganhou na mega sena.










Aí fica o duelo entre o tempo, a tinta que escorre pelo chão, a vizinhança barulhenta e a idéia primeira rabiscada no caderninho que cada vez parece mais distante (apesar do passar do tempo).










Então surge uma certa esperança e auto-confiança. Você se sente mais concentrado e feliz porque as pinceladas vão formando aquilo que sua mente projetou.










Aos poucos você vai ficando sujo, imundo, o atelier idem, claro.
A coisa vai ficando meio chata, sem sentido porque você se sente como um varredor de rua, um apertador de parafusos ou pintor de paredes, porque a coisa te impõe um esforço braçal chatérrimo.










Você sente então uma mistura bem medida de alívio da coisa estar terminando e receio de ter parido uma bosta colorida, ao invés de um quadro.










Tá, enfim acabam os traços, as pinceladas.
E aí você fica bem felizão porque acabou o martírio delicioso daquilo.
Então coloca a coisa na parede, investiga o resultado e vai sendo invadido por uma sensação estranha de angústia depressiva.










Enfim, tudo finda, “graças a deus”, você pensa.
Fica olhando aquela coisa ali, parada, imóvel e cruel. Parece que a coisa se coloca sobre os seus ombros e te obriga a se odiar por estar em frente de algo tão distante da idéia primeira rabiscada no caderninho.


Aí você disfarça; sai de casa, vai tomar uma cerveja, finge que esquece.


Mas quando entra pela porta da sala: plumb!
A coisa está esperando sorridentemente por uma olhadela sua. Exibida que só ela, a coisa quer ser investigada em cada polegada.


Esta briga lasciva só acaba quando você decide ser mais forte escondendo-a, ignorando-a da memória e dos olhos.


Aí, sete ou oito meses depois, você re-olha: tira de dentro da caixa das coisas indesejadas e a concede um habeas corpus.


Com pudor a coloca de novo na parede.


Então vocês se aproximam, se olham no fundo dos olhos.
Se abraçam, sentem-se, gostam-se e fazem amor como dois amantes loucos e saudosos.





os muros

February 22, 2006






além de grades, tem cadeados pra prevenir fugitivos pra fora e pra dentro.






alguns lugares tem grades altas pra preservar o mato que cresceu e ninguém cuidou.






tem mais uma porção de gente que constrói muros imensos pra se proteger do céu.





ainda tem gente que pinta muro de rosa pra contrastar com a casinha verde, vai ser mangueirense assim lá no Rio!

A chuva

February 21, 2006




O céu caiu agora há pouco.
Quem ficou dentro de casa viu um espetáculo barulhento.
Quem estava fora, hum, eu não queria estar.



A madrugada de ontem, em compensação, guardou o cheiro da chuva, um friozinho e as luzes velozes da cidade que circula nos ônibus amarelos.




Este é o horizonte de Londrina antes de adormecer.

Bárbara

February 20, 2006


Ela me pede pra pintar duas telas.
Uma grande, outra menor, retangular.
Ela é estilosa e pós-moderna.
Eu intuitiva, modernista e azul.
Ela escolhe uma gama de tons entre o marrom e o preto.
Eu penso: meu deus! Sou azul piscina.

Pra mim a arte é um vômito, uma gozada em cores,
uma frase dita e redita centenas de vezes em cada pincelada.

Sempre pintei quadros para meus amigos.
Sabe como eu faço?
Tento saber quem ele é e como eu o encaro, então eu o traduzo.

Simples assim.
Eu funciono como um tradutor automático do altavista.com.
Refaço a pessoa aqui por dentro e na ponta do pincel.
Pra depois devolver tudo aquilo que eu robei de dentro dela em forma de papel e um punhado de tinta acrílica.

Mas agora é diferente, pela primeira vez eu preciso não pintar uma pessoa ou um verso, mas
uma idéia que combine com os tons de uma sala e deixe
ela feliz, tipo uma mistura entre feng shui e arte.

Como decidir isso tudo?
Como decifrar esta esfinge?

Isso parece uma bobagem idiota, né?
Eu sinto que parece.
Mas me incomoda, e tudo que incomoda, faz sentido.

EU VI

February 18, 2006




Tivemos o privilégio de ver os Stones no melhor lugar do mundo.
O sofá de casa, a chuvinha deliciosa que caiu, algumas das melhores músicas de todos os tempos (que Mozart e Bach perdoem nosso gosto pelo paganismo erótico do rock) e certamente a performance mais impressionante da música, ai, o paraíso às vezes parece bem perto.





Aliás, existe alguém no mundo que não gosta de Stones?




CINEMA

February 18, 2006



A idéia de um filme quase sempre nasce de uma caminhada solitária sobre o solo:
porque ele esconde a verdade, porque ela não existe.




partir

February 14, 2006




a vida de Luciene cabe numa malinha verde com alças.
primeiro ela coloca as calcinhas, 7 pares de meia.
depois blusas de calor, calças, uma saia preta, um tênis,
um sapato de salto lindo.
toma um banho lento, calmo, gelado.
ela sente a coragem de quere viver mais
perto de outro lugar.
o nome da cidade ela vai decidir na rodoviária, onde vai
sacar o dinheiro da passagem, tomar um suco delicioso de
morango e manga, embarcar e abrir um livro bem besta pra passar
o tempo.

a cidade se sente

February 13, 2006




Da rua brasil até à higienópolis foram quatro as pessoas que eu vi retirando do lixo comida, papéis, plásticos.

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Vi muitos prédios do começo da cidade, onde hoje se vendem pastéis gordurosos, fichas de sinuca e cerveja barata.

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Uns quatro ou cinco sebos abarrotados de saias de evangélicas, camisas das décadas anteriores a de 1980 e sapatos com solas carcomidas.


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Vi nos bancos filas de meia hora de espera com gente segurando boletos e reais para manter número do CPF bem londe do SPC.

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Vi centenas de cores nos catálogos de tintas para parede, móveis, carro e eletrodomésticos na Duque de Caxias.

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Vi um homem com mais cores manchadas nas roupas do que todos os arco-íris do mundo juntos.

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Ouvi o barulhento ônibus amarelo cruzar avenidas.


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Ouvi a bola descendo pela caçapa e fazendo aposentados grisalhos sentirem-se fortes e poderosos.

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Ouvi o barulhinho veloz do teclado entremear Chopin, enquanto uma mulher com o dobro da minha idade retira da minha sacola de lixo os restos da marmita de ontem.

Londrilândia

February 08, 2006



A cidade se faz nos vórtices de vozes semi-dissonantes.
Mas elas falam.
Silenciosas falam.

Cada indivíduo é o ser que palpita dentro, reverso,
pré-logicamente da ordem caótica das ruas, avenidas, ruelas, recantos.

O silêncio é o verso que prenuncia o espasmo.
E cala?
Nunca.
E fala?
Sempre.

O silêncio é só o convite.
Seja muito bem-vindo.


Pérolas da nerdísse

February 04, 2006

“Eu vou te deletar te excluir do meu orkut
Eu vou te bloquear no MSN
Não me mande mais scraps nem e-mails, powerpoint
Me exclua também, e adicione ele!”

Sucesso ‘sertanerd’
Curitibano conquista fama na rede com música sertaneja ‘Vou excluir você do meu orkut’


A mudança

February 03, 2006
ficar sem luz, internet e telefone é uma cretinisse que a mudança de endereço impõe.
sem falar nas caixas espalhadas, bagunça que nunca finda e se acostumar a sair do bar e ir para um novo endereço.
mas tem a vista (vida) nova, vento na janela, quadros mais coloridos, TV Cultura, câmera no elevador, condomínio mais barato, parede bem pintada e gesso no teto.