meias, camisetas, brincos, tender, fios de ovos, papéis, dinheiro, nozes, avelãs, papa e hominho das casas bahia vestidos de papai noel.
as imposições natalinas são provocações para a classe média. provocações, claro, de consumo.
na frente da casa dos meus pais mora uma família com três meninos que têm entre cinco e oito anos. vivem cheios de terra vermelha pelo corpo, cobertos apenas por calcinha ou cueca.
a casa de madeira, uma horta atrás.
minha mãe perguntou para a mãe dos meninos se podia dar um presente.
levamos então um cachorro de pelúcia do meu tamanho para os três. eles riam e pulavam em cima do bichão.
prozac de pelúcia, felicidade momentânea.
como dar um presente de verdade?
uma dádiva que seja real e não uma imitação?
o que se pode fazer?
a resposta sempre parece e aparece nebulosa.
assistencialismo civil é engodo paternalista.
é tirar do Estado a obrigação de devolver o pouco do muito que ganha em impostos.
mas então é possível dividir e ser útil sem ser contraditório frente a barbárie que se vê andando por qualquer rua brasileira?
isso é de arrepiar os cabelos, é de deixar picasso e braque espantados com o refinamento social brasileiro: ver gente carente, que sente o estômago vazio, sem médico! meu deus, guerra civil, mas a gente aprende a fingir que não vê, e nem pode, porque se visse, bateria as panelas, quebraria os pratos, queimaria coisas.
aquela historia de ter uma das maiores cargas tributárias do mundo e uma das piores distribuições de renda já são fatos introjetados. já fazem parte de nós como o samba, mulher que samba, bala perdida, o pão de açucar e as cataratas.
é estranho introjetar imoralidades.
é estranho não saber o que fazer.
é estranho ler e pensar isso no Natal,
mas enfim, vamos aos perus e bacanaços.