Quando a Tatiana tinha 13 anos o grande barato da vida era esperar os finais de semana para dar beijo na boca dos moleques mais bonitinhos e tomar vodka com coca-cola. Ela tomava muitas, muito rapidamente.
Aos 14 anos era mais vodka no copo do que refrigerante, e os meninos, hum, os meninos já não eram mais tão moleques.
O barato era curtir a insanidade permissiva da bebida que rasgava a garganta da menininha virgem.
Depois vieram as boates e as bebidas mais requintadas e caras, além das cantadas mais baratas com direito a rigor formal e conteudístico. Eles, os homenzinhos, só queriam enfiar as mãos ligeiras e faceiras nos orifícios de Tati, mas ela, impetuosa, não deixava. Eram todos abandonados assim que na pista reverberasse uma música-alquímica, que lhe fornecesse mais êxtase e satisfação que línguas desencontradas e molhadas.
Depois vieram os botecos de terça à sábado. Tati ficava horas sem comer para conseguir ficar bebadinha com pouca cerveja, já que a grana era curta. Aí as cantadas demoravam mais do que dois minutos e um puxão no corredor entre a pista de dança e o banheiro feminino e os caras sabiam mais do que quatro assuntos e três nomes de poetas latino-americanos.
Então vieram as duas garrafas de vinho meia boca, as velas, o prato especial, conversas metafísicas, a meia luz, o quarto de casa e algumas peripécias sexuais (e os caras, abandonados pelo cara).
Depois era o jantar, a luz acesa, a porta do banheiro aberta, saber como fora o dia entupido de rotina do cara um pouco mais velho, o mesmo do vinho, repartir lençóis e disputar travesseiros.
Depois era o almoço, dividido em frente a TV ao som de um casal qualquer de jornalistas elencando os últimos fatos mais desimportantes do dia, comentários sobre o vencimento das contas, o preço das coisas, a vizinha antipática e os apelidinhos inconfessáveis.
E finalmente, era o quarto escurecido pela cortina para esconder a tarde, o anti-depressivo e a cama solitária.