juliana tinha vergonha e preguiça de fazer cocô.
se-trancava no banheiro dos fundos da casa na hora mais barulhenta do dia.
levava sempre algum objeto que julgava interessante consigo: barcos de jornal, abridores de lata, embalagens de sabão em pó ou pedaços de papel bolha pra externar o desconforto em forma de pequenos estouros de ar e plástico.
eram sempre íntimos e lúdicos aqueles minutos angustiados.
sua primeira tarefa era abrir a torneira semi-entupida e se-concentrar no som morninho da água preenchendo a pia.
a cerâmica amarela era uma lagoa infernal. ela imaginava grandes navegações e maremotos ali dentro.
esticava o braço e se acalmava com a temperatura gostosa da água, ou deitava os barquinhos preparados com antecedêncioa sob as gotas grossas que caiam velozes.
a água era alívio-ampulheta, calmante-carrasco.
juzinha tinha apenas as poucas dezenas de segundos do abrir a torneira ao transbordar a pia pra se livrar da massa densa e dura.
se não desse certo a operação, ou o banheirinho era inundado e ela perderia o resto da tarde com panos e rodos, ou todo sacrifício seria limpo e sagrado.
este era o segredo gigante dos seis anos da juliana, que hoje finge que não lembra daquele medo e estardalhaço emocional por tão pouco.