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Archive for December of 2005

Da genealogia dos Veríssimo

December 26, 2005



A obra mais tocante do Luís Fernando é se referir sempre ao esplêndido Érico como “o pai”. A árvore genealógica dos Veríssimo fixa assim, na sutileza da linguagem, o imperativo da efetividade.

Desconheço tratamento mais revelador de proximidade e respeito do que aquele de um homem de cabelos brancos: “o pai gostava muito de divertir os netos, de escrever sozinho outros mundos que eram sempre este; e este, aqueles”.

Pacotinhos e pacotões

December 24, 2005



meias, camisetas, brincos, tender, fios de ovos, papéis, dinheiro, nozes, avelãs, papa e hominho das casas bahia vestidos de papai noel.
as imposições natalinas são provocações para a classe média. provocações, claro, de consumo.
na frente da casa dos meus pais mora uma família com três meninos que têm entre cinco e oito anos. vivem cheios de terra vermelha pelo corpo, cobertos apenas por calcinha ou cueca.
a casa de madeira, uma horta atrás.

minha mãe perguntou para a mãe dos meninos se podia dar um presente.
levamos então um cachorro de pelúcia do meu tamanho para os três. eles riam e pulavam em cima do bichão.
prozac de pelúcia, felicidade momentânea.

como dar um presente de verdade?
uma dádiva que seja real e não uma imitação?
o que se pode fazer?
a resposta sempre parece e aparece nebulosa.
assistencialismo civil é engodo paternalista.
é tirar do Estado a obrigação de devolver o pouco do muito que ganha em impostos.
mas então é possível dividir e ser útil sem ser contraditório frente a barbárie que se vê andando por qualquer rua brasileira?
isso é de arrepiar os cabelos, é de deixar picasso e braque espantados com o refinamento social brasileiro: ver gente carente, que sente o estômago vazio, sem médico! meu deus, guerra civil, mas a gente aprende a fingir que não vê, e nem pode, porque se visse, bateria as panelas, quebraria os pratos, queimaria coisas.
aquela historia de ter uma das maiores cargas tributárias do mundo e uma das piores distribuições de renda já são fatos introjetados. já fazem parte de nós como o samba, mulher que samba, bala perdida, o pão de açucar e as cataratas.
é estranho introjetar imoralidades.
é estranho não saber o que fazer.
é estranho ler e pensar isso no Natal,
mas enfim, vamos aos perus e bacanaços.

As novas nada boas

December 22, 2005
O calor de Foz do Iguaçu é assustador.
Não há como fugir dele, ele persegue, amarra e fica fazendo tortura chinesa dos pés à cabeça.

Mais sacana que o calor descomunal só a comida da rodoviária de Londrina que me deixou ilhada na masmorra entre a cama e a privada durante dois dias. Existe ditador maior que o sistema digestivo?

Tati em (poucos) atos e muitas drogas

December 18, 2005



Quando a Tatiana tinha 13 anos o grande barato da vida era esperar os finais de semana para dar beijo na boca dos moleques mais bonitinhos e tomar vodka com coca-cola. Ela tomava muitas, muito rapidamente.

Aos 14 anos era mais vodka no copo do que refrigerante, e os meninos, hum, os meninos já não eram mais tão moleques.
O barato era curtir a insanidade permissiva da bebida que rasgava a garganta da menininha virgem.

Depois vieram as boates e as bebidas mais requintadas e caras, além das cantadas mais baratas com direito a rigor formal e conteudístico. Eles, os homenzinhos, só queriam enfiar as mãos ligeiras e faceiras nos orifícios de Tati, mas ela, impetuosa, não deixava. Eram todos abandonados assim que na pista reverberasse uma música-alquímica, que lhe fornecesse mais êxtase e satisfação que línguas desencontradas e molhadas.

Depois vieram os botecos de terça à sábado. Tati ficava horas sem comer para conseguir ficar bebadinha com pouca cerveja, já que a grana era curta. Aí as cantadas demoravam mais do que dois minutos e um puxão no corredor entre a pista de dança e o banheiro feminino e os caras sabiam mais do que quatro assuntos e três nomes de poetas latino-americanos.

Então vieram as duas garrafas de vinho meia boca, as velas, o prato especial, conversas metafísicas, a meia luz, o quarto de casa e algumas peripécias sexuais (e os caras, abandonados pelo cara).

Depois era o jantar, a luz acesa, a porta do banheiro aberta, saber como fora o dia entupido de rotina do cara um pouco mais velho, o mesmo do vinho, repartir lençóis e disputar travesseiros.

Depois era o almoço, dividido em frente a TV ao som de um casal qualquer de jornalistas elencando os últimos fatos mais desimportantes do dia, comentários sobre o vencimento das contas, o preço das coisas, a vizinha antipática e os apelidinhos inconfessáveis.

E finalmente, era o quarto escurecido pela cortina para esconder a tarde, o anti-depressivo e a cama solitária.


Dezembro

December 14, 2005


A cidade se enfeita toda oferecida para o último mês do ano. Doa-se qual putinha esperançosa de um belo bofe que se apaixone por ela, a tire da zona e leve para morar numa casa grande com TV a cabo, forno de microondas, carro na garagem e afetos.

A cidade se pisca de luzinhas brancas, de enfeites vermelhinhos e verdes para tentar se parecer com alguma capital do hemisfério norte em que o papai noel tem justificativas para se vestir de vermelho e peles para o caso de se perder numa nevasca.

Mas aqui tem o calor da porra que derrete qualquer moribundo à tarde, tem promoções que gritam pelo 13o. pros poucos que o recebem, panetones de frutas cristalizadas que ninguém come, gente correndo atrás de emprego temporário, perus mortinhos - depenados, embalados e com medidor para avisar quando estiverem bem cozidos - para dividirem a mesa com um mundareu de comidas que a família vai demorar três dias para devorar.

É neste festival de cópias da cópia da cópia que no Brasil se festeja mais um Natal, mais um ano que já se vai comemorado com rodízio de pizza nos três poderes.

E o reveillon?
Nele brindaremos todos felizes e bêbados (redundância boba) o passar do tempo e a vontade de que a merda-festança do próximo ano tenha nomes e ideologias melhores (além de um papai noel de bermudão, um natal mais brasileiro e uma cidade nem puta, nem santa; mas em festa porque pode comemorar, não porque tenha esperanças de no futuro poder).

:: o mercado negro do transplante de faces ::

December 13, 2005




A polícia britânica juntamente com a inteligência russa (existe eufemismo maior do que denominar um departamento de inteligência? se uns policiais figuram nela, os outros, presumidamente, são desprovidos dela?) formaram o grupo internacional de investigação “scarface” para mapear a ação de criminosos que sequestram modelos, atrizes famosas e homens de meia idade para leiloar seus rostos em sites da internet.

A grande dificuldade é identificar a origem dos criminosos, já que hospedam os sites em provedores dos EUA e logo os tiram do ar.
Por U$$ 90 mil é possível, segundo os sites, ter o rosto de modelos de segundo escalão. Mas quem estiver disposto a gastar módicos U$$ 2 milhões, pode encomendar o rosto que quiser que os criminosos prometem sequestrar o dono das feições desejadas e implantá-las no cliente.

As top models mais famosas já aumentaram o número de seguranças, “eu nunca imaginei que a violência pudesse nos atingir desta forma, estamos todas com medo”, confidenciou Gisele Bünchen em seu último desfile em Nova Iorque acompanhada do ex mais presente do mundo da moda, Leonardo di Caprio. O ator se mostrou também preocupado, “se alguém tocar no rosto fabuloso da minha diva, enlouqueço”, disse o astro entre um cigarro e uma dose de wisky.

Entretanto, não são apenas as divas das passarelas e das telonas que temem a nova onda de sequestros, mortes e o macabro leilão de suas faces. Os sites também leiloam rostos de homens comuns para criminosos que desejam se camuflar da polícia. No texto dos sites, eles prometem um resultado final muito gratificante e ainda oferecem abrigo para traficantes e procurados em geral até a cicatrização final do transplante.

A polícia acredita que dentre os bandidos figurem médicos, anestesistas e enfermeiras, mas ainda nenhum membro da quadrilha foi identificado, segundo informações da “sacarface”.

:: os barquinhos ::

December 11, 2005



juliana tinha vergonha e preguiça de fazer cocô.
se-trancava no banheiro dos fundos da casa na hora mais barulhenta do dia.
levava sempre algum objeto que julgava interessante consigo: barcos de jornal, abridores de lata, embalagens de sabão em pó ou pedaços de papel bolha pra externar o desconforto em forma de pequenos estouros de ar e plástico.

eram sempre íntimos e lúdicos aqueles minutos angustiados.
sua primeira tarefa era abrir a torneira semi-entupida e se-concentrar no som morninho da água preenchendo a pia.
a cerâmica amarela era uma lagoa infernal. ela imaginava grandes navegações e maremotos ali dentro.
esticava o braço e se acalmava com a temperatura gostosa da água, ou deitava os barquinhos preparados com antecedêncioa sob as gotas grossas que caiam velozes.

a água era alívio-ampulheta, calmante-carrasco.

juzinha tinha apenas as poucas dezenas de segundos do abrir a torneira ao transbordar a pia pra se livrar da massa densa e dura.
se não desse certo a operação, ou o banheirinho era inundado e ela perderia o resto da tarde com panos e rodos, ou todo sacrifício seria limpo e sagrado.
este era o segredo gigante dos seis anos da juliana, que hoje finge que não lembra daquele medo e estardalhaço emocional por tão pouco.

londrina uiva a noite insone

December 08, 2005



se-edificam no silêncio da magrugada versos que imitam o minuano.
é o plágio paranaense dos sons dos ventos da infância.
são sequências dodecafônicas que esbarram nos vértices dos prédios.

londrina uiva a noite insone.
o estrondo prenuncia o dia?

nada, estrondo anuncia outro estrondo, e este outro, e o outro, mais outro.

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você não sabe uivar, como a cidade, então dorme as horas dos justos.
sonha com piscina de bolinhas plásticas multicolorias, com um hotel escondido nas dunas maranhenses, com uma loira bem peituda que se oferece em viscosidades na parada do ônibus.

você oferece carona para o ermo da sua ardência.
ela fecha a blusa e te nega. negar, em sonho, você pensa, isso é sacanagem demais.
então anota a placa do carro da frente para transformar
a frustração em números para ser o novo rico de Londrina vencedor da mega sena.
sobe então a av. higienópolis e estaciona em frente a uma boate vermelha com luzinhas brancas.

dentro, o papai noel.
ele coloca você sobre o joelho esquerdo e pergunta se é ou não um bom menino.
você pensa em mentir, tenta lembrar alguma frase de efeito, resolve citar Foucalt, desiste.

rouba num estalar de dedos o saco de balas e sai correndo da boate escura.

a rua está deserta.

londrina uiva a noite insone.