A COR ILEGAL

Nada, dentro nada VI




“j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.”
Orides Fontela in Poemetos


Você anda cansado.
As manchas azuis-violáceas sob os olhos revelam quanto seu relógio biológico tem feito camabalhotas sobre sua rotina.

Você, um alvo?
Você, um protagonista a revelia?

Nada, você homem-barbado sem muita graça, porque a graça resta (em manhãs cinzas como a de hoje) no exótico, no ex-cêntrico. E barba tem graça em gente de outro gênero.

A despeito da barba rala que cresce, você é um cara bem risível - não de riso de ironia, ou sarcasmo puros; mas de risadelas - um despertador de salpicos de risadas.

Espera o telefone tocar com cara de dor.

Tenta esquecer as listras pretas do quadro, as contas inexatas de listras que provam sensivelmente que você e a insanidade estão se olhando nos olhos.

Então você se diverte encarando as lâmpadas paralelas do teto, eita passa-tempo grandioso.
Duas, sujas, na verdade imundas, pensa. Você calcula o lugar exato em que elas deveriam estar fixadas no teto: hummmmmmmmmm, cerca de 32 cm em direção à parede em que fica o quadro, já que do jeito que foram presas, próximas da janela, não ajudam a iluminar o quarto.

Ai, o quadro, o quadro, as tiras, o quadro, eles aparecem e desaparecem. Você tenta não olhar, mas o não é o instrumento magnético que mais te suga.
É só receber uma negativa para querer o que lhe negam. Coisas de leoninos, dizia aquela namorada de coxas grossas e hálito de gengibre. Você reluta, mas não resiste, volta a recontar as tiras pretas, coloridas, 32, 33, 32, 37, 32.
O pavor te sobe as cuecas.

Publicado em 14 de setembro de 2005 às 08:55 por gabi

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