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Archive for September of 2005

vontadezinha

September 30, 2005
Eu queria muito que nesta manhã nós fossemos atravessados por um rio; e que, da margem superior, brotássemos de novo, maiores, melhores, oriundos de outras cores e raças.
Ai, como eu queria o rio transpassando nossas entranhas estranhas.

os códigos

September 28, 2005


Você sabe amar quando na neblina as mãos escorregam entre o abdômen e o joelho, e cada milímetro é um velho conhecido cujos mecanismos os dedos manipulam com a destreza de um relojoeiro suíço.
Você sabe amar quando o suspiro, o gemido e o ranger de dentes são códigos identificáveis em que se pode precisar o que e quanto o outro sonha em uma madrugada pesada de horas de sono descompensadas.
Você sabe amar quando as horas passam e um imã te suga como vórtice inconteste para a presença (mesmo virtual) de quem se transforma em saudades pela distância mínima de algumas horas e poucos metros.
Você sabe amar quando é natural se preocupar com o bem-estar, com o por-vir e com o hoje - que mesmo medíocre e cheio das maldade da rotina - é bom, risível e divertido.
Você sabe amar quando se sente seguro o suficiente para pensar na velhice, na morte e na possibilidade de ficar de cama por uma semana por uma virose qualquer.
Você sabe amar quando seu apito interno grita quando uma idiotice egoísta invade espaços e fronteiras que não são as suas, então você recua e pensa seriamente em respeito.
Você sabe amar quando dá uma risada boa que nem percebe, só de ver a cara que também sorri pelo fato banal de lhe avistar.
Você sabe amar quando sabe que seu bar pode continuar sendo só seu e o do outro idem, mesmo que às vezes a cerveja possa ser dividida no mesmo copo sujo.
Você sabe amar quando o ciúme é pequeno, pelo menos um milímetro menor da noção de que a Terra é imensa e ninguém é obrigado a morar onde mora, ir onde vai, comer quem come, ligar para quem liga e querer quem quer, e se o faz, é porque quer, e isto basta como analgésico para crises ciumentas.
Você sabe amar quando sente sinceramente que um rompimento não é uma perda, mas uma decisão adulta, coerente, consciente e cosida por mais que quatro frases passionais.
Você sabe amar quando fica várias folhas do calendário longe e o mundo abre uma porta vazia em que você senta e fica esperando, esperando, esperando.
Você sabe amar quando é inteiro, e não metade, nem dois, mas um, e isto basta para querer um outro, mesmo que o outro muitas vezes se pareça tanto que se assemelhe a um espelho ou a um eco.
Você sabe amar quando lê uma idiotice que repete mais de três vezes “você sabe amar” e não se importa, porque entende idiotices e tem paciência pra elas, sobretudo se são idiotices sobre amor.

Rola no chão, pula do teto e anda pelas paredes

September 27, 2005


A partir das 20h30 desta quinta-feira (29/09) o
público londrinense vai poder ver pela primeira vez os
trabalhos de Margareth Miola na exposição “Essências”.
A artista plástica abre passagem para o jogo entre
arte, real, estética e ética ao trabalhar desde 1998
novos significados plásticos com materiais simples
acerca do tema da falta de uma política
ecologicamente correta sobre a escassez da água.

Suas obras já integraram diversos salões de artes: 2º
Salão de Artes de Paranaguá, o 12º Salão de Artes de
Foz do Iguaçu, o 2º Salão de Artes de Tibagi,
EcoMuseu, 14º Salão de Artes de Cascavel, 10º Salão de
Artes de Antonina Salão do Mar e o 14o. Salão de Artes
de Foz do Iguaçu com a obra premiada “Futuro Tesouro”.


Para a artista o museu é um lugar aberto ao livre pensar (no teto, paredes e chão. Aceite este convite e venha repensar e (re)sentir na

Casa de Cultura da UEL na Rua Mato Grosso 537
de 29 de setembro a 23 de outubro de 2005
Lançamento dia 29 de setembro às 20h30

Contato: malete_cm@hotmail.com e 43 30265037

armas de guerra

September 25, 2005


A mais impressionante arma na guerra entre a família-quadrilha Bush e os povos do Oriente Médio comprova a velha teoria do quanto a indústria bélica causa a evolução da ciência na manipulação da natureza: os “terroristas” estão desenvolvendo um concentrado químico ainda não batizado capaz de produzir tornados grau cinco em cerca de 3 horas.
Segundo fontes da Casa Branca, a substância teria sido desenvolvida por homens do grupo dos Bin Laden que fizeram pós-graduação nas mais renomadas universidades dos EUA com bolsas norte-americanas de incentivo à pesquisa. Ainda segundo as fontes do alto escalão do governo, os “terroristas” se concentram em acrescer a precisão do deslocamento dos tornados, que já são produzidos com facilidade - como comprovam as recentes catástrofes no Estado da Louisiana e as novas ameaças de outras tragédias - mas ainda mantêm uma margem de erro de 130 km de distância dos alvos.

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sabedoria popular ninguém desmente

September 20, 2005

quando o que se vê estarrece, a boca

September 20, 2005
quando o olho duvida, a boca

September 18, 2005

September 17, 2005

September 15, 2005

Nada, dentro nada VI

September 14, 2005



“j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.”
Orides Fontela in Poemetos


Você anda cansado.
As manchas azuis-violáceas sob os olhos revelam quanto seu relógio biológico tem feito camabalhotas sobre sua rotina.

Você, um alvo?
Você, um protagonista a revelia?

Nada, você homem-barbado sem muita graça, porque a graça resta (em manhãs cinzas como a de hoje) no exótico, no ex-cêntrico. E barba tem graça em gente de outro gênero.

A despeito da barba rala que cresce, você é um cara bem risível - não de riso de ironia, ou sarcasmo puros; mas de risadelas - um despertador de salpicos de risadas.

Espera o telefone tocar com cara de dor.

Tenta esquecer as listras pretas do quadro, as contas inexatas de listras que provam sensivelmente que você e a insanidade estão se olhando nos olhos.

Então você se diverte encarando as lâmpadas paralelas do teto, eita passa-tempo grandioso.
Duas, sujas, na verdade imundas, pensa. Você calcula o lugar exato em que elas deveriam estar fixadas no teto: hummmmmmmmmm, cerca de 32 cm em direção à parede em que fica o quadro, já que do jeito que foram presas, próximas da janela, não ajudam a iluminar o quarto.

Ai, o quadro, o quadro, as tiras, o quadro, eles aparecem e desaparecem. Você tenta não olhar, mas o não é o instrumento magnético que mais te suga.
É só receber uma negativa para querer o que lhe negam. Coisas de leoninos, dizia aquela namorada de coxas grossas e hálito de gengibre. Você reluta, mas não resiste, volta a recontar as tiras pretas, coloridas, 32, 33, 32, 37, 32.
O pavor te sobe as cuecas.

Nada, dentro nada V

September 05, 2005


Você - prisionerinho da quitinete feita de caixinha de fósforos - resolve então tentar ser o marinheiro feliz. Sorridente vai até o computador, toca no mouse para sair do modo de espera, clica em C:, depois em músicas e dpois exita em selecionar a pasta White Stripes ou Requiem-Mozart. A ocasião pede a orça dos clássicos, sussurra para o computador. Despe-se e faz-se o nu balarino obeso que se quer cúmplice da mobília emboatada de poeira.
Dança, pula, reproduz doisou três passos guardados na memória adolescente de admiração pelos bailarinos russos.
Você cansa na primeira metade do Requiem. Senta-se sobre a cadeira de rodinhas e admira a louça que repousa limpa no escorredor.
Conta as paralelas pretas e laranjas do quadro vertical.
73, não 76, não 71, ai não sei.
As tarjas pretas de repente somem do quadro.
Você então pára frente a tela. Reconta os traços coloridos = 32. Meu deus, meu deus, os rabiscos pretos da tela sumiram.
Fecha os olhos len-ta-mmmmmeeennn-tttttteeeeeeeee.
Abre-os rápido, como quem de susto pudesse voltar à normalidade perdida.
Reconta = 32. Meu deus, meu deus. O quadro perdeu o preto. Olha o teto, as paredes, o chão, mas não encontra as trajinhas pretas que dividiam o quadro como as paralelas de madeira fixam o caminho do trem.
Fuça então o lixo: latas vazias de cerveja fermentando o saco do supermercado, resto da marmita de ontem, bitucas. O cheiro de lixo então contamina o quarto.
Mas uma pista, remota, fracionária lhe sugere o caminho óbivio dos trilhos do quadro: este (clique para saber)!

Nada, dentro nada IV

September 03, 2005


Você ó treco que respira fundo, denso, pesado, jogado na cama. Você é o indivíduo, o ser, o vivente, o morador, o destinatário, o condômino, o narratário da história maluca que me contaram ontem.
Nunca imaginei, mas é você que se amontoa sobre a cama empilhando medos e decorando nomes, números e a ordem das imagens da pilha de revistas que chegam segundas e quartas-feiras por debaixo da porta que separa teu corpo do lado de lá.
Você, meu deus, é você o cara. Você! Meu deus, que história-fábula, que protagonista indizível.
Quase não acreditei, juro, mas é você.
Para ouvir clique aqui.