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Archive for August of 2005
August 31, 2005
O seu corpo e a cama são a massa mais uniformes da manhã. O colchão há dois dias não encontra lençol, só travesseiros sem fronha e farelo de pão e bolacha Maria. Você vai sentindo um medo. um temor, uma coisa que incomoda. Você descobre todo aliviado a causa: vontade de fumar. Mas aí volta todo seu medo da rua, ai meu deus, será que não existe algum disque-tabaco nesta maldita cidade?, pensa infeliz;
Para ouvir clique aqui.
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August 29, 2005
Você então decide entre bermuda e calça. Bermuda ou calça, bermuda ou calça, bermuda ou calça. Grande questão existencial da manhã: bermuda! A idéia da bermuda enfim traz uma ressalva de mostrar as canelas finas em contraste com o resto do corpo. Sente-se feio, horrível, gordo. Pensa nos olhares de nojo que irá despertar na gente toda que passa, na vergonha de estar fora da porta.
Você o monstro gordo que oferece ao mundo um punhado de neuroses pululantes.
Deita na cama de bermuda. Fecha os olhos. Imagina o calor, a poluição, as ladeiras e tenta alguma coisa bem lá dentro que salve ou acalme.
Tem coisas que nem a nicotina ou uma dose líquida podem resolver.
Fica vendo por detrás das pálpebras os quadrados amarelos que se formam do contraste da luz fria do quarto com a escuridão de dentro.
Conta os quadrados.
Respira fundo.
Sente-se um verme gordo esparramando as ancas gordas sobre a cama desarrumada.
Ai, meu deus, nem rezar você sabe.
Resolve então não sair de casa, é uma decisão tão firme que até lhe surpreende.
Levanta com um pulo, abre o armário e puxa de dentro do emaranhado de tecidos uma camiseta.
A primeira mostra das suas velharias com cheiro de naftalina foi o maior acaso da manhã.
E se você escolher uma outra cor, mais escura, por exemplo, será que sentirá menos o peso dos olhos da rua?
Veste o prêmio amassado.
Enfia os pés no sapatênis marrom. Pára na frente da porta.
Ai, quer saber de uma coisa, um dos caras que falam dentro da sua cabeça lhe diz: vá amanhã, aí você acorda mais cedo, almoça no centro, passa no banco e paga o aluguel.
Amanhã é melhor, talvez o animo seja outro, o dia mais ameno e você se sinta alguém mais forte, pelo menos um pouco.
Então você volta, se sentindo além de gordo, um covarde, e deita mais um pouco para esperar as horas passarem lentas.
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August 26, 2005
Você acorda assim, na preguiça de mais um dia.
Casa vazia, papéis na parede, no chão, sobre a mesa. Um copo d´água. Mais um. Mais outro. Você abre a geladeira barulhenta. Nada dentro, nada.
Você sente o frio do final da manhã. Coisa chata.
Pensa em sexo um pouco, vai até o banheiro. Olha no espelho o seu rosto enquadrado nos dois pares de paralelas.
Olha no fundo dos olhos daquele cara do lado de lá.
Pensa em sexo de novo. Tira uma meleca do olho para se sentir desejável para si.
Eita manhazinha besta, meu Deus.
Você vai devagar de volta a geladeira.
Abre para se certificar que não tem nada para matar
a fome que começa nascer.
Devagar vai até a porta, abre.
Olha a cidade cinza, os prédios grudados nas nuvens feito papelão.
Ai, que preguiça da vida que começa antes das 11 de qualquer manhã.
Devagar, olha as janelas e devagar as janelas olham.
Volta para o banheiro lento, lento.
Baixa a calça de moletom, pega o pinto com a mão geladinha e relaxa ouvindo os pingos de mijo na água da privada. Sacode e guarda.
Abre caminho entre os papéis do chão com pequenos pontapés.
Liga o computador.
Enquanto inicia o Windows mais um copo d´água pra enganar o estômago e a ressaca.
Nada no e-mail, ninguém no MSN.
Procura um cigarro.
Acende a bituca que jaz fedida no cinzeiro.
Ah, a cidade espera lá fora. Você pensa no emaranhado de gente que sobe e desce as ladeiras, que vai e vem para fazer dinheiro para trocar por comida, aluguel, contas, novas vontades-necessidades que os outdoores coloridos inventam pra esmagar as pessoinhas que vem e vão.
Você olha pra tela do computador, navega de link em link procurando um nó que te segure.
Pensa na cidade, imagina ela como um grande buraco negro em que a gente toda faz histórias e se desfaz.
A cidade é a cidadela de milhões, porto infernal, suga, suga, suga - vórtice invisível de subjetivismos. Você, seguro, preso na cadeira manca, grudado na tela luminosa é tão grande e sensual, grande cara, você pensa, flutuando sobre o ir e vir.
Ai, que fome, ai que fome, ai que fome, repete, repete.
3324 7707. Acha o número no site de buscas e pede uma porção pequena de arroz, feijão, bife. Quanto tempo? 15 minutos?
Troco para cinco.
Miles Davis, Miles Davis pra começar bem o dia.
Sobe do joelho e vai até seu peito uma vontade de sexo. Você dança, rebola, se sentindo um ridículo sobre os papéis no meio da sala-quarto.
Avista um cigarro debaixo do armário.
Esmaga o braço, raspa na base de compensado do móvel, cata o cigarro e se sente esperto e vitorioso.
Gira o botão do mini-fogão e com um isqueiro branco velho estoura o fogo.
Mete a cara sobre a chama para acender a ponta de nicotina. Delícia deliciosa, fumar horas inteiras, vendo as lentas espirais do lado do lá da cidade.
Você: voyer, flanêr, super-homem sem brasão no peito e sem capa brega.
Televisão, lapada de notícias feitas só de lead e imagens da capital federal, de denúncias de corrupção, de deputados plastificados oportunistas, de bombas, homens que explodem e polícia que atira e depois pergunta o nome. Feijão no fundo da marmita sem salada. Mais Miles Davis, trancar a porta e ir.
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August 23, 2005
O seminário Internacional de Literatura de Passo Fundo é sobretudo um grande show.
Dezenas de centenas de crianças e adultos participam dentro um circo montado na Universidade de Passo Fundo de um evento com feições de exposição agropecuária de um misto de celebração e carnavalização da literatura.
Autores renomados, especialistas e uma multidão que apreende por osmose que ler é uma grande “viagem” fashion.
Os dezenas de patrocinadores do evento confirmam a característica de grande espetáculo da cultura com cobertura nacional.
O debate aprofundado parece ficar em segundo plano frente aos muitos lançamentos e o caráter de divulgação do evento barulhento e colorido patrocinado por grandes editoras e empresas.
Mas enfim, que viva a festa da leitura no país de tantos iletrados mesmo que seja a custa de um circo-carnaval.
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August 07, 2005
e fez que fez que a sangria desatou,
que o nós desfez
porque era sábado.
só o tempo e a desmemória salvam.
só os mantras repetem verdades com v minúsculo.
e rezar, pouca gente sabe.
eu lembro de umas duas ou três rezas católicas, com falhas de versos.
você esqueceu todinhas de propósito, quando trocou bíblia por manifesto.
a água salgada que escorre o rosto,
lava, purifica e encera.
aí tem cara limpa e nova
pra mais pancadas, cafunézinhos, beijinhos e uma epopéia
inteira a ser escrita por um bom ginógrafo em letras góticas pretas
na minha pele branca.
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August 05, 2005
a noite caiu.
quem levantou foi você.
e a vida já era fim de semana.
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August 03, 2005
Na minha arara são tantas roupas de tempos tão diferentes entre si. Pensar em como se juntaram é exercitar misto de memória e ficção.
Sou quem entra no quarto, remexo-as, tiro uma, sujo-a, empilho-a e depois a devolvo limpa.
Minhas roupas são 80% doações que eu recebo feliz. Compro mais livros e pincéis do que roupas. Dou as que não uso mais que duas vezes por estação – lição aprendida em casa materna. Só percebo que muda a moda quando as meninas ricas trocam de uniformes caros, para em seguida a classe social de meninas carentes copiá-las.
Não lembro de ter tido luxos, apesar adorar de hotéis bons, aviões e poder de compra. Entendo meu poder de compra como investimento em uma vida intimamente mais rica e inteligente.
(Não tive luxo maior, que me lembre, do que poder comprar um requeijão mais caro ou comer vez e outra em um bom reustaurante.)
Não querer muito ajuda. Filhos? Não, tenho constância demenos e egoísmo demais. Queria uma rotina que bancasse toda minha caretisse: horários, saladas, casa limpa, papéis arrumados... soltando Dionísio umas duas vezes por mês por cerca de 4h, até ele encontrar Morpheu.
Quero plano de saúde, de previdência para minha família e alguma coisa bem distante de uma ONG que desse socorro a amigos, família e quem quisesse um bom grito de paz e guerra aos nãos da rotina.
Queria uma academia menos canônica e distante e gentes sinceras consigo.
Leis que funcionassem ou gente que funcionassem sem leis.
MATRIARCADO DE PINDORAMA.
Queria versos de amor roubados da noite, sexo sem obrigação. RESPEITO. Fernando Pessoa pra crianças. Bíblia e Manifestos como pura literatura. Orgia como bem estar, camisinha como tesão e diálogo como tensão.
MATRIARCADO DE PINDORAMA.
Mais Oswald e menos Mário.
Por mais deuses quânticos e menos deuses-cientistas.
Por menos redemunhos, mais paz, menos remédios.
Menos marionetes bushianos, caixa 2, ideologias autoritárias, partidos e mais Ética.
MATRIARCADO DE PINDORAMA.
Amém
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