para viviane mosé
O poema, mais que os quadros, me cutuca na hora (in)exata.
circula com canetinha marca-texto as formas da rua que pretende retratar, captura-as e guarda.
o poema sobe e desce como os calorões da menopausa, me cochicha um zumzumzum em todas as horas, sobretudo as inoportunas.
debaixo das séries infinitas sobre teoria literária que meus olhos percorrem, o poema salta e dá murros no ar para reter minha atenção.
tem hora que ignoro,
tem outras que ele é que ignora.
o poema é quase sempre egóísta: me dá para me tomar em dobro.
me entorpece e depois foge, qual sexo fácil.
mas pidoncho, carente e egocêntrico o poema volta, me pede afago, beijo na boca, canção de ninar e putarias memoráveis.
eu cedo - ele é o canastrão mais sutil entre todos os latinos (vide neruda)
aí o poema me vira do avesso e me come com tanto gosto que,
ai, exijo mais.
então o poema silencioso vai-se,
deixa-me.
e quando por mim esquecido sob pena de sofridas noites solitárias
ele volta, me bulina e come.
(pra sumir mais uma vez)