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Archive for June of 2005
June 30, 2005
O quadro é mais imperioso que o poema. Não avisa ou dá indícios: ordena!
Categórico, me dá nunca mais que trinta minutos para pari-lo. Faz-me dentro de um transe compulsivo, nubla minha íris, me entope de pincéis e impulsos agudos e sussurra no meu ouvido - mais preto, mais branco, mais azul, mais claro-escuro.
Quando ele parte e eu fico tingida dos restos da compulsão: palheta multicolorida dos pés à cabeça.
Já tentei domá-lo, juro.
Já conversamos no palco de monólogos.
Já decidimos pela distância.
Já tentamos instaurar temáticas objetivas e racionalizadas: tudo estéril.
Submeto-me, empresto meu corpo.
O quadro é o mais memorável dos meus amantes: não toca campainha, telefona ou escreve um e-mail.
Arranca-me a roupa assim, sem hora marcada para me ter na trepada mais dionisíaca que meu corpo concebe.
Coloca-me os pés pelas mãos, os pulsos por algemas e me fode de todos os jeitos: roça-me o útero, lambuza-me os peitos e liquifaz minha boca.
Do encontro fica-me o filho que eu penduro em algum canto para fazer companhia a uma parede órfã.
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June 27, 2005
Ame os apaixonados
e admire os sistemáticos.
(A vida me deu dois olhos tão curiosos que fazem uso das mãos-língua-ouvidos-nariz-pele para ver.)
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June 23, 2005
A ira em 1a. pessoa é covardia.
Todos os pecados soam sublimes em um parágrafo único, catártico.
DESCOMUNAL.
Não há nenhuma pausa além do ponto final-final. Dele, recupera-se o fôlego qual espanto para perdê-lo por todos os pensamentos seguintes, dos dias seguintes.
É a dose mais áspera de ousadia irática disponível nos balcões de bares-livrarias.
Quem bebe Raduan Nassar não quer cerveja, nem cognac, ou quaisquer baixezas etílicas!
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June 20, 2005
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June 19, 2005
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June 14, 2005
para viviane mosé
O poema, mais que os quadros, me cutuca na hora (in)exata.
circula com canetinha marca-texto as formas da rua que pretende retratar, captura-as e guarda.
o poema sobe e desce como os calorões da menopausa, me cochicha um zumzumzum em todas as horas, sobretudo as inoportunas.
debaixo das séries infinitas sobre teoria literária que meus olhos percorrem, o poema salta e dá murros no ar para reter minha atenção.
tem hora que ignoro,
tem outras que ele é que ignora.
o poema é quase sempre egóísta: me dá para me tomar em dobro.
me entorpece e depois foge, qual sexo fácil.
mas pidoncho, carente e egocêntrico o poema volta, me pede afago, beijo na boca, canção de ninar e putarias memoráveis.
eu cedo - ele é o canastrão mais sutil entre todos os latinos (vide neruda)
aí o poema me vira do avesso e me come com tanto gosto que,
ai, exijo mais.
então o poema silencioso vai-se,
deixa-me.
e quando por mim esquecido sob pena de sofridas noites solitárias
ele volta, me bulina e come.
(pra sumir mais uma vez)
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June 12, 2005
ou um aviso para um dia dos namorados sem namorados
fantasma é o pedaço do passado tão presente, tão vivo que dói de ardência cretina. de cretinisse inválida.
todos uns mentirosos, antiéticos, grosseiros.
eu não acredito em fantasmagorias maldosas.
fantasmas devem ser devidamente deletados, excluídos do MSN, do orkut, retirados das agendas telefônicas, das trilhas sonoras, de dentro da coisa toda que arde.
fantasma bom é fantasma morto, enterrado, desterrado, distanciado.
você sabe, o fantasma é a lava viscosa que escorre dentro das artérias, que põe em confronto a legião de arcanjos e demônios entre as orelhas atentas.
não acreditar em fantasmas é ver através da sua matéria escandalosa. e ver olhos trans-lúcidos.
não crer em fantasmas é reclamar para si as horas gastas, as palavras escritas a sangue nos muros, as tintas dos retângulos que preenchem as lacunas vazias dos corredores entre o quarto imenso e a sala.
não acreditar em fantasmas é querer=se de volta.
olhar=se para dentro.
fantasma bom é fantasma morto.
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June 08, 2005
Atrás da tela deste computador arcaico, outra tela.
Uma meia lua, um azul de céu e o vermelho rasgado de dentro de mim que eu pintei na retângulo que se me ofereceu branco.
Dentro da tela atrás da tela perguntas de noites recheadas com fermento lento lento de coser desejos perenes.
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June 06, 2005
Para Manuel Bandeira
sou uma italiana que rebola o samba retinto:
rezo o que alma manda
menos por lógica,
mais por instinto.
filha de Iansã
sou a mulata mais branca de batismo cristã
que batuca no kharma do Rio, de Londrina e Amsterdã.
sou desta gente toda de olhos tão castanhos, de cabelos tão misturados
e alma indolor.
eu sou do paraíso tropical de medíocres poderosos,
da terra do darwinismo às vezes que seleciona o podre
que barbariza o pobre capaz.
mas eu sambo,
sambo sim!
porque isto eu sei,
tu sabes,
ele sabe,
nós sabemos,
e eles (mesmo regados ao mais caro wisky) sabem muito bem.
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June 04, 2005
você entra em um bar, cansado da vida de somar reais e os subtrair por despesas.
senta no balcão paciente, quer a solidão.
então o coisa ruim é o cenário perplexo.
o demo quebra uma garrafa com a agilidade única dos malandros.
o líquido se espalha, os cacos ecoam e a garrafa é a lâmina mais cortante da noite antes calma, agora sanguinária.
são as vísceras que o homem extirpa na sua frente.
é o corpo que agoniza.
é o corpo que jaz.
tudo na única noite de ócio que você havia dedicado à libertinagem.
é, a noite acabou em ira.
os amigos se foram em medo.
a solidão restou solitária.
é tudo volver para tu casa.
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June 01, 2005
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