O bairrismo de Porto Alegre dos anos amorfos da década de 1990 parou. Foram centenas de leitores que deixaram suas casas naquela semana chuvosa de 5 de maio de 1994 para velar o corpo do poeta. (eu estava lá)
O que viram?
Os vestígios tomados pelo tempo, a matéria de carbonos na decomposição obrigatória.
O que não viram?
O corpo da `matéria vertente` que escorria nas paredes de concreto de uma cidade que o poeta cantava com saudosismo do menino que deixou a farmácia de Alegrete para ganhar as tardes das meninas suicidas, dos meninos apaixonados, dos adultos de acúmulo e sisudez.
Mário Quintana carregou para as rodas de chimarrão a intensidade de uma ironia alegre, aquela especial que faz ruir desde as grandes instituições à pureza poética do dia-a-dia.
Um homem, amante das belas mulheres, fez morada em hotéis porto-alegrenses, escreveu a vida que pulsava nas noites insones, nos bares, no mapa escandaloso de uma cidade nunca desvelada por completo. Um homem, que fez da poesia o lugar sem regionalismo, fez o eixo óbvio da cultura brasileira esvaziar-se.
Amar a singeleza des seus versos é olhar dentro das pupilas de um brilhante ser que teve a competência de tecer umas das melhores traduções dos grandes clássicos. Ser Quintana é ser o Haikai da rotina, que ri do secular e presenteia com uma risadinha marota que se eternizou no banco da praça em frente ao Museu do centro de Porto Alegre ao lado do imóvel Drummond.
E lá estão eles hoje, rindo da matéria orgânica que se faz e desfaz, na imortalidade dos grandes poetas.