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Archive for May of 2005
May 31, 2005
a tarde, a conta bancária e a sujeira mal-dizem o dia.
a louça suja na pia,
a poeira sob a cama,
o pigarro,
o copo com tinta usada até a borda imunda,
a tela incompleta,
o saldo vermelho,
as milhares de páginas pra ler,
o trabalho incompleto,
as mãos sujas de naquim,
o esmalte que descasca,
a saudade maltrapilha
estes os versos corrosivos.
esta é a maravilha de morar nesta casa de espelhos turvos.
esta é a serena obrigação que embala os pesadelos
cheios de sexo impuro e violência lacrimosa.
porque desdenhar a vida?
porque sim!
porque olhar para além?
existem outros fora do umbigo?
porque ser inverno de dias curtos?
porque ser epifania?
saudade é só vento, não te disseram?
presença é vento também, não sabias?
nem eu, nem Santa Tereza, nem Klossowski, nem Foucalt, nem
Rodrigo Grota , nem meu pai, minha mãe, meus irmãos e toda a corja de poetas e artista ocidentais sabiam.
cadê a salvação?
bem longe da cultura que tem um Deus moribundo depois de Nietzsche.
cadê Deus?
onde sempre esteve: DENTRO.
e a idéia de pecados e culpas que enojam os desejos e geram sempre a culpa dentro da culpa dentro dos erros?
é tudo pessimismo?
não, claro que não.
ainda tem mais uma multidão de desesperos apregoados em legiôes.
pera aí, que ainda tem muito mais.)
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May 28, 2005
Curta-metragem londrinense será exibido no Anima
Mundi
A animação “Pedras e Balas”, criada pelo designer
recém graduado pela Universidade Estadual de
Londrina (UEL) Guilherme Baracat, foi selecionada pelo
Festival Anima Mundi 2005 para ser exibida em duas capitais
brasileiras.
“Pedras e Balas” será exibida no Rio de Janeiro de
oito a 17 de julho. De 20 a 24 de julho é a vez dos
paulistanos conferirem a animação que aborda a
questão da violência através de técnicas alternativas de
tratamento de imagens.
A animação, que foi apresentada como Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) para o curso de Desenho
Industrial da UEL, tem influência do quadrinista Joe
Sacco.
Sacco é um jornalista que emprega a linguagem dos
quadrinhos para abordar assuntos polêmcos do nosso
tempo. Recebeu muitos prêmios pela veracidade e
qualidade apresentados em seus quadrinhos.
“Foi um quadro do gibi em que uma menina de onze
anos estava hospitalizada porque foi baleada pelo
exército israelense porque atirou pedra nos soldados que me inspirou. Uma das outras duas crianças que estavam com ela atirando pedras foi morta, e a outra ficou gravemente ferida.
Parti do caso da Palestina para tratar de um tema
universal: a violência. A partir da estética e da
polêmica levantada por Sacco desenvolvi “Pedras e
Balas”, conta Baracat.
A animação está disponível na internet no site
www.portifoliovirtual.com.br, que tem também outras
produções interessantes.
Atualmente o designer trabalha no desenvolvimento de
um curta-metragem baseado no conto “Como ser Cult e
Agarrar garotas no Valentino” publicado no livro de
mesmo nome de Julio Tanga e Rodrigo Souza Grota.
Guilherme Baracat
tel: (43)3026-3369 e (43) 9997 1430
e-mail: gui_baracat@yahoo.com.br
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May 27, 2005

Para Ygor Raduy
são homens que me miram
eu gosto destes olhos que desejam
e não me sabem
são vistas ansiosas de uma ilusão-Gabriela
um não-lugar Gabriela
dois sonhos-donzela
de dentro desta pandora perplexa espinafro estes olhos-apolos
re-olho
com miríades-medéia
assassino-os dentro
ofereço-me como propriedade fe(minina) [que não sou]
eu-medéia-medusa
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May 24, 2005
para Miguel Vieira
São todos fisiológicos os teus sintomas,
são sempre mensuráveis,
identificáveis do lado de fora.
e dentro (entre a atmosfera nebulosa de hemáceas conflitantes)
a caldeira escaldante de hormônios e saudades faz cega a audição,
turva a razão sem métrica,
burra a lógica sem rima
relativista de noção t x s.
Desassossego é o nome mais evidente da paixão.
****
Quando chove o tempo é espelho da minha íris.
****
Em dias de pingar canivetes eu e as nuvens temos a medida exata de melancolias.
****
Quando chove minha alma encontra equilíbrio líquido com a natureza das plantas e de existir.
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May 20, 2005
meu Dna tem marcas
que tento esfacelar com substâncias controladas
marcas-cicatrizes
meu ID traz uma legião de demônios
legião-catástrofe
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May 19, 2005
A noite é paulistana de fantasmas solitários.
E sei ser só e tento ser forte.
Tento ser reta na imprecisão das avenidas paralelas.
O ponto de fuga é cinza-magnético
Atrai para longe
e pára perto,
quase dentro.
***
Anteontem eu tive Mário, Oswald, Milliet nas mãos. Ontem tive a genética tarsiliana em frente aos olhos e coração.
Tenho a mais anacrônica das devoções!
***
Encontrei Tarsilinha do Amaral em frente ao Museu de Arte Contemporânea da USP - MAC - às 10h40 da terça-feira.
Procurei os traços da pintora na genética daquela mulher radiante. Falamos do nosso amor comum pela Tarsila do Amaral e todas as suas linguagens.
Tarsilinha foi-me tão generosa com informações e disponibilidade quanto a Tarsila cronista é com seus leitores. Ela voltou para a especialização em Museologia e eu fui magnetizada para dentro do MAC.
Kandisnky, Tomie, Lhote, Tarsila, Aguilar, Picasso foram as minhas epifanias desta terça paulistana.
(É sempre dentro de salas frias cheias de cores que minha alma fica repleta de felicidade.)
Arte é minha matéria-prima!
***
Da biblioteca da USP trouxe dezenas (e caras) páginas sobre Tarsila.
Os kg de papel eu comprimi contra o peito e zelei com afeto.
De dentro do MAC saiu uma nova Gabriela.
Quem ela é eu ainda não sei. Sei apenas o que e quanto ama. Sei também até onde se deve ir por amor.
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May 16, 2005
Não sei se sou uma traça, um detetive ou simplesmente uma entidade estranha. São horas fuçando em arquivos antigos, livros empoeirados e revistas de 1922.
O que eu investigo?
Um passado que nem de longe foi exaurido.
Sonetos, versos, casos homossexuais, taras, libertinagens e liberdades que fizeram da literatura produzida no Brasil tão maravilhosamente moderna e quase intragável pela gente de seu tempo.
Eu sou o detetive do passado que não quer respostas futuras.
Sou uma traça a procura de novas hipóteses que irão gerar outras novas hipóteses.
Sou a entidade estranha que desembolsa dezenas de reais para adquirir materiais produzidos por outras entidades estranhas.
***
A biblioteca é a casa do silêncio mais urrante que eu conheço.
***
Eu sentia saudades de S. Paulo.
A paisagem cinza já corrompeu minhas veias.
A vida aqui de certa forma acontece concentrada, para o mal, para o bem.
***
Sinto saudades dos meus amores londrinenses, que são poucos, mas me comovem: meu namorido, amigos, irmão, casa, poesia que me vem barata e a proximidade das coisas.
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May 13, 2005
Amanhã pego minhas malas e me vou para a capital gigante e imensa do coração financeiro do País.
Rever amigos, encontrar gente que preciso pra minha dissertação.
que a boa nova sempre nos proteja.
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May 12, 2005
estes homens, mulheres, filosofias, sonhos e teoremas.
são as dezenas de livros que ocupam o espaço vazio da minha cama de casal.
somos nós todos uns fracassados solitários.
uns vencedores simpáticos e ricos.
é esta classe mediana de sonhos de arte, crítica e vontade de ir além de um horizonte que não tem nome (e que nos soa tão intangível).
somos isso mesmo (ou não?)
eu gosto de perguntar
mas nunca (ou quase) sei responder.
Amém
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May 05, 2005
O bairrismo de Porto Alegre dos anos amorfos da década de 1990 parou. Foram centenas de leitores que deixaram suas casas naquela semana chuvosa de 5 de maio de 1994 para velar o corpo do poeta. (eu estava lá)
O que viram?
Os vestígios tomados pelo tempo, a matéria de carbonos na decomposição obrigatória.
O que não viram?
O corpo da `matéria vertente` que escorria nas paredes de concreto de uma cidade que o poeta cantava com saudosismo do menino que deixou a farmácia de Alegrete para ganhar as tardes das meninas suicidas, dos meninos apaixonados, dos adultos de acúmulo e sisudez.
Mário Quintana carregou para as rodas de chimarrão a intensidade de uma ironia alegre, aquela especial que faz ruir desde as grandes instituições à pureza poética do dia-a-dia.
Um homem, amante das belas mulheres, fez morada em hotéis porto-alegrenses, escreveu a vida que pulsava nas noites insones, nos bares, no mapa escandaloso de uma cidade nunca desvelada por completo. Um homem, que fez da poesia o lugar sem regionalismo, fez o eixo óbvio da cultura brasileira esvaziar-se.
Amar a singeleza des seus versos é olhar dentro das pupilas de um brilhante ser que teve a competência de tecer umas das melhores traduções dos grandes clássicos. Ser Quintana é ser o Haikai da rotina, que ri do secular e presenteia com uma risadinha marota que se eternizou no banco da praça em frente ao Museu do centro de Porto Alegre ao lado do imóvel Drummond.
E lá estão eles hoje, rindo da matéria orgânica que se faz e desfaz, na imortalidade dos grandes poetas.
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May 04, 2005
preciso pintar uma alma.
uma mulher presa numa tela.
são dois pares de paralelas e uma vastidão de sentir pelos olhos obliquos.
não há tinta que dê conta desta insensatez.
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May 02, 2005
eu picoto as frutas da manhã e espanto teu sono.
é uma cesta de café na cama sem café.
são as poucas calorias de um bom dia de um frio de rachar o domingo em sete diferentes partes imaginárias.
eu parto pela avenida acima.
tu partes para a casa (uma outra casa)
partir é a rubrica mais sensata de domingo.
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